segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Rosinha e Willy Klüppel

Fotógrafo H.A.Volk - Final da década de 1880
1901
1909

Termo de batismo dos gêmeos Rosa e Guilherme Klüppel, na Catedral de Curitiba, em 10/11/1884.

No alto, minha bisavó Rosa e seu irmão Guilherme (Willy) Klüppel, gêmeos e filhos caçulas de Carolina e Nicolau Kluppel, em foto de fins da década de 1880. Logo abaixo, minha bisavó Rosa Klüppel Soffiatti, em foto do ano do seu casamento com meu bisavô, Guerino Soffiatti. Na foto acima, Rosa Klüppel Soffiatti, tendo ao lado esquerdo sua filha Geny*, em 1909 na festa das bodas de ouro de Carolina e Nicolau Klüppel. Rosinha e Willy Klüppel nasceram em Curitiba em 12/10/1884 e foram batizados na Catedral Metropolitana, no dia 10/11 do mesmo ano. Foram padrinhos de Rosa, sua irmã mais velha Carlota e seu marido João Klas. 

Conta a tradição familiar e a publicação Famílias Brasileiras de Origem  Germânica¹, que Guilherme Klüppel morreu assassinado numa emboscada² (vide post), quando exercia o cargo de subcomissário de polícia em Itaperuçu, no início do século passado, com cerca de vinte e sete anos. Willy Klüppel casou-se com Alayde (Alaida) Rodrigues teve duas filhas, Amélia e Aracy Klüppel. 

¹ Publicação conjunta do Instituto Genealógico Brasileiro e do Instituto Hans Staden; São Paulo, 1967; págs. 303,304 e 305.
² Guilherme Klüppel faleceu em 17/08/1911, numa emboscada mandada executar por seus adversários políticos, segundo relata o telegrama do coronel Carlos Pioli, chefe político da região, enviado ao jornal A República, órgão do Partido Republicano Paranaense, do qual Guilherme era membro ativo. Na ocasião, exercia o cargo de subcomissário de polícia do distrito de Itaperuçu, em Rio Branco do Sul (PR). Antes, havia exercido o mesmo cargo no distrito de Santa Cruz, em Cerro Azul (PR). 
* Geny Soffiatti casou-se em 24/02/1924 com Octavio da Motta Ribeiro.    

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A Família Soffiatti e Guaratuba: Uma História de Amor à Primeira Vista

O casario colonial de Guaratuba visto de quem chegava pela baía, em direção ao antigo trapiche. No detalhe aumentado, pode-se notar um numeroso grupo de pessoas aguardando a atracação de um barco. A casa dos meus bisavôs Rosa e Guerino Soffiatti é a penúltima à direita da foto. De modo geral, as alterações significativas neste panorama nos últimos noventa anos foram algumas casas modernizadas.  Muitas das construções à esquerda do prédio em ruínas afundaram em setembro de 1968, devido à erosão das marés causada pela posição do antigo trapiche. (Esta foto pertencia ao acervo pessoal do meu bisavô e, provavelmente, é de meados dos anos 1920. A primeira parte do trapiche de pedra foi inaugurada em 1922 e a obra seria completada alguns anos mais tarde.)

Vista da baía de Guaratuba, bem defronte à casa dos meus bisavós, no início dos anos 1930. Ao fundo da baía, no maciço à direita, está majestoso morro do Cabaraquara. Na foto, à direita, é possível notar um barco atracado no trapiche.
(clicar nas fotos para ampliar)

Guaratuba, no litoral do estado do Paraná, sempre foi para a família de Rosa e Guerino Soffiatti e depois para seus descendentes, um segundo lar. Meu bisavô apaixonou-se por essa antiga cidade balneária em meados dos anos 1920, quando começou a frequentá-la com sua família, hospedando-se na conhecida Pensão Antonieta.

Naqueles tempos chegar a Guaratuba era uma aventura que durava quase um dia inteiro de viagem e começava por trem, através da ferrovia Curitiba-Paranaguá. Inicialmente, era preciso ir de navio de Paranaguá até Guaratuba. Em 29/07/1927 foi inaugurada a "estrada da Praia de Leste" que permitiu a ligação de Paranaguá às praias do futuro balneário de Matinhos. A partir de então era possível ir de "diligência" (como era chamado um ônibus tipo jardineira) de Paranaguá até Caiobá, sendo que o trajeto entre a Praia de Leste e Matinhos se fazia pela faixa de areia dura, à beira mar, durante as vazantes da maré. Dali, a travessia da baía até a cidade de Guaratuba era por meio de canoas e, mais tarde, em lanchas. (Vide o post "Em Guaratuba...")

Esta foto (colorizada) do fim dos anos 1920 ou início dos anos 1930, mostra o trapiche já concluído, com embarcações de médio porte atracadas, que faziam rotas pelos portos do sul do Brasil, até Paranaguá. Guaratuba ainda era um pequeno vilarejo com um casario colonial, onde se chegava somente pelo mar.

No início dos anos 1930, meus bisavós adquiriram uma antiga casa térrea colonial, situada bem defronte à baía, cujas paredes tinham mais de meio metro de espessura que, segundo minha avó Olga Soffiatti Biscaia, pertencia à congregação dos padres da matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso. A casa foi reformada, transformando-se num sobrado que ainda existe e pertence à nossa família. Minha bisavó, Rosinha Klüppel Soffiatti, residiu permanentemente nesta casa em seus últimos anos de vida, até falecer em 1963. Em 1957, meus avós Olga e Mario Chalbaud Biscaia construíram sua própria casa, na avenida Ponta Grossa, próxima da praia. A partir de 1961, com a inauguração do ferry-boat, que até hoje faz a travessia de veículos e pessoas pela baía de Guaratuba, a cidade transformou-se num dos mais importantes balneários de férias do sul do Brasil. 

Estas vistas nostálgicas de Guaratuba em meados dos anos 1920 e início dos anos 1930, cujas fotos (exceto a terceira, encontrada na internet) pertenciam aos meus bisavós, devem ter sido a origem da paixão que a nossa família sempre nutriu por Guaratuba, que passou para as gerações seguintes, de seus filhos, netos e bisnetos.  

sábado, 8 de agosto de 2020

Os Irmãos Chalbaud Biscaia

Em pé: João e Antonio Chalbaud Biscaia. Sentados: meu avô Mário; Evaristo e Narciso Chalbaud Biscaia. (Foto de fins da década de 1920).
Maria José (Zezé) Biscaia de Macedo.
Os irmãos Chalbaud Biscaia, reunidos no aniversário de 70 anos de Narciso Chalbaud Biscaia, em 11/12/1981. Da esquerda para a direita: Narciso, João, Frederico, Evaristo e Antonio Chalbaud Biscaia. Os dois outros irmãos, meu avô Mário Chalbaud Biscaia e a tia avó Maria José Biscaia de Macedo, já eram falecidos. (Foto do acervo da prima Maria Célia Biscaia, filha do tio avô Narciso, o qual viveu mais de 90 anos). 

Os irmãos Chalbaud Biscaia, filhos de Josefina (Finita) Chalbaud Biscaia e João dos Santos Biscaia. Todos nasceram em Curitiba e residiram na rua Dr. Pedrosa, 203, em casa ainda existente no local. Tiveram destacada atuação na capital e no Paraná, em suas atividades privadas ou em cargos públicos.

João Chalbaud Biscaia foi diretor regional e conselheiro do grupo Matarazzo, além de procurador da família Matarazzo no Paraná, por mais de cinquenta anos. Foi presidente da Associação Comercial do Paraná, por dois mandatos.

Antonio Chalbaud Biscaia foi advogado, professor universitário, procurador-geral do estado e de justiça, secretário de estado e deputado federal pelos antigos PTB e PSD do Paraná, entre outros cargos públicos.

Evaristo Chalbaud Biscaia era advogado e foi vereador em Curitiba. Foi, ainda, procurador-geral do extinto IAPC (hoje parte do INSS), no Rio de Janeiro.

Narciso Chalbaud Biscaia foi, por anos, gerente da fazenda Curitiba, empreendimento modelo, pertencente à empresa Leão Junior S/A, em Jacarezinho (PR).

Mario Chalbaud Biscaia, meu avô, era comerciante. Membro da Junta Comercial do Paraná e um grande entusiasta do futebol e do associativismo. Foi um dos principais dirigentes do Clube Atlético Paranaense e um dos fundadores da Associação Paranaense de Reabilitação (APR) e do Iate Clube de Guaratuba. A sala de sessões plenárias da Junta Comercial do Paraná tem o seu nome.

Na foto ao alto não está o irmão caçula, que aparece na outra foto: Frederico Chalbaud Biscaia, médico radiologista e alto dignitário da Maçonaria paranaense. Foi um dos pioneiros da cidade de Maringá, no norte do Paraná.

Além dos irmãos, havia uma irmã, Maria José (Zezé) Biscaia de Macedo (foto do meio) casada com Tobias de Macedo Junior, ambos padrinhos de minha mãe.               

sábado, 13 de junho de 2020

A Festa de Santo Antônio em Tranqueira - 1926

Convite para a festa de Santo Antonio, publicado no jornal O Dia, em 03/06/1926
A antiga capela de Santo Antonio em Tranqueira  (foto da página da Capela no Facebook)

Junho é o mês das festas dedicadas aos santos mais queridos e populares da Igreja Católica, especialmente nas tradições portuguesas e, também, nas italianas: Santo Antônio (que é de Lisboa e de Pádua), São João, São Pedro e São Paulo, os mais festejados neste mês, em todo o Brasil. No nordeste brasileiro, acontecem as comemorações juninas mais famosas que reúnem dezenas de milhares de pessoas em cidades como Campina Grande, no estado da Paraíba; e Caruaru, no estado de Pernambuco.

Para relembrar as antigas festas juninas desta data, encontrei um convite da festa do glorioso Santo Antônio de 1926, na capela consagrada ao mesmo na vila de Tranqueira, então uma localidade de Rio Branco do Sul, próxima a Itaperuçu, onde meus bisavós Soffiatti tinham uma propriedade rural e comércio de secos e molhados. A velha capela da foto ruiu em 1994 e no seu lugar foi construído um novo templo de arquitetura moderna. Atualmente, o bairro de Tranqueira pertence ao município paranaense de Almirante Tamandaré, situado na região metropolitana de Curitiba.

No convite assinado, entre outros, pela bisavó "festeira" Rosinha Soffiatti, há referência à casa deles em Curitiba, na rua Conselheiro Barradas, 112 (vide post) (atual presidente Carlos Cavalcanti) onde meu bisavô Guerino Soffiatti receberia as doações de prendas para a grandiosa festa, que aconteceria logo após a santa missa, com "excellente banda de música" e uma "grande churrascada".

O convite é também subscrito por outros "festeiros" com sobrenomes de famílias italianas tradicionais daquela região: os Chimelli e os Stocchero, estes últimos aparentados da família Soffiatti, por casamento: a tia avó Dalila Soffiatti casou-se em 05/02/1921 com Pedro Stocchero, filho de Anna e Antonio Stocchero.

Outra referência curiosa é o "trem especial" que levaria os convivas à festa, partindo às 8:30h do dia 13 de junho da estação central de Curitiba,  e retornando à Capital às 17 horas. O convite avisa que o comboio iria parar "em todas as estações e plataformas" do trajeto até Tranqueira. Naqueles tempos, as ferrovias ligavam todas as principais cidades e muitas pequenas localidades do Paraná e do Brasil.

Neste ano de 2020, quase 100 anos depois, nossas belas festas juninas com seus animados "arraiás da roça" serão apenas saudosas lembranças do passado, devido à pandemia da Covid-19 que ainda persiste no Brasil. Viva Santo Antonio, neste dia especial!!! Que sempre nos proteja e guarde!! 
      

terça-feira, 26 de maio de 2020

O Dirigível Hindenburg em Curitiba - 1936

Neste ano completam-se 90 anos da primeira viagem do dirigível alemão LZ 127 Graf Zeppelin ao Brasil, que atracou em Recife (PE), em 22 de  maio de 1930. Três dias depois, em 25 de maio, chegava ao Rio de Janeiro, então capital federal, deslumbrando os cariocas. 

Irmão mais novo do Zeppelin, o dirigível LZ 129 Hindenburg, batizado em homenagem ao ex-presidente da Alemanha, Otto Von Hindenburg, iniciou as viagens ao Brasil em 1936, como parte da propaganda nazista dirigida à América do Sul. A aeronave sobrevoou o sul do Brasil e aqui aparece nos céus de Curitiba passando sobre o antigo edifício da Universidade do Paraná, na praça Santos Andrade, em 2 de dezembro de 1936. O relógio do prédio dos Correios, no canto esquerdo da foto, parece marcar o horário de 08:30h.

No ano seguinte, em 6 de maio, foi destruída numa explosão ocorrida durante os trabalhos de atracação, na base aeronaval de Lakehurst (NJ) nos EUA. O desastre pôs fim à glamorosa era dos dirigíveis de transporte intercontinental de passageiros. A foto-postal pertencia à minha avó Olga Soffiatti Biscaia.    


sábado, 11 de abril de 2020

O Atleta Número 1 do Tijuca Tênis Clube e o Troféu Peralta

1956
1966
1936

1936

1936

Convocação da seleção carioca de basquete em 1934
Convocação da seleção carioca em 1935
Meu avô, Arthur Carlos Peralta, foi um esportista modelo, um atleta padrão em seu tempo. Destacou-se em quase todas as principais modalidades esportivas da sua época, mas, foi com o basquete que obteve suas maiores glórias e consagrou-se com renome nacional. Sua performance neste esporte foi motivo de muitos prêmios, troféus e homenagens em torneios e campeonatos durante a década de 1930, quando o circuito esportivo nacional relevante era restrito ao eixo Rio-São Paulo, com grande e óbvia ênfase para a cidade carioca, que  então era a capital da República e centro dos clubes esportivos mais importantes do Brasil.

Foi competindo pelo laureado Tijuca Tênis Clube, o famoso grêmio cajuti, um dos mais tradicionais clubes do Rio de Janeiro, que ele conquistou o maior número de prêmios e vitórias, tornando-se, oficialmente, o mais importante atleta de um longo período da história daquela agremiação. Arthur Carlos Peralta recebeu do conselho deliberativo do Tijuca Tênis Clube o título honorifico de Atleta Número 1 e, em 11 de junho de 1956, o clube instituiu em sua homenagem o Troféu Peralta, que passou a ser concedido, anualmente, aos atletas que mais se destacavam nas varias modalidades esportivas do clube e que atendessem plenamente aos critérios de dedicação, disciplina e eficiência. Desde então, o Troféu Peralta foi incorporado ao Estatuto do Tijuca Tênis Clube, no seu artigo 131, abaixo reproduzido:



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Família Klüppel Soffiatti: Uma Casa e Quatro Gerações

A casa de Rosinha e Guerino Soffiatti em foto do final da década de 1940. Ao fundo, à esquerda na foto, é possível ver a silhueta da fachada da residência de Rosinha e Conrado Bührer Junior, na esquina oposta da rua Mateus Leme com a atual rua Presidente Carlos Cavalcanti. A casa visível no canto direito da foto pertencia à família de Alexandre Gutierrez, na época.  

A casa de duas fachadas da foto pertenceu aos meus trisavós Carolina e Nicolau Klüppel em Curitiba, situada no número 626/636 (antes número 112/114) da antiga rua conselheiro Barradas¹ (atual presidente Carlos Cavalcanti), na esquina com a rua Mateus Leme. O imóvel estendia-se até a esquina com a rua Paula Gomes. Esta casa foi herdada pelos meus bisavós Rosa Klüppel Soffiatti e Guerino Soffiatti, que adquiriram as partes dos demais herdeiros e ali passaram a residir, a partir de meados da década de 1920. 

Foi, ainda, morada de meus avós Olga e Mario Chalbaud Biscaia, nos primeiros anos do seu casamento. Nesta casa, numa noite de lua nova de inverno, com a assistência da conhecida parteira Anna Reinhardtª, nasceu minha mãe, Maria do Rocio Soffiatti Biscaia. O médico Bernardo Leinig, casado com sua tia-avó Julia Chalbaud Leinig estava presente e supervisionou o parto, na ocasião.

Ata da sessão da Câmara Municipal de Curitiba que concedeu a carta de data do terreno para Nicolau Klüppel, em 1862. 
Pelo menos parte do terreno onde a casa estava edificada fora adquirido por Nicolau Klüppel, mediante carta de data da Câmara Municipal de Curitiba, concedida em 16/01/1862, quando o logradouro denominava-se "rua nova do Saldanha". Como era comum naqueles tempos, os proprietários utilizavam-se das suas construções para suas atividades profissionais² e para residência de sua família. Costumava-se, também, alugar quando havia espaços ociosos: a oficina de ourives de Frederico Schnell³ estabeleceu-se neste local, a partir de 1866.

Relação das sapatarias de Curitiba - Almanak da Província do Paraná - 1876

Anúncio da oficina de ourives de Frederico Schnell em O Dezenove de Dezembro - 1866

Pouco antes de falecer em 1950, meu bisavô Guerino Soffiatti vendeu o imóvel. No seu lugar foi construído o edifício Mateus Leme, com quatro pavimentos, por incorporação do tio-avô Evaristo Chalbaud Biscaia, juntamente com Mario Affonso Alves de Camargo e Percy Eduardo Isaacson. É das únicas edificações daquele trecho da rua Mateus Leme que respeita um recuo para o alargamento da via que jamais ocorreu.

Na sua vizinhança residiam famílias descendentes de germânicos, quase todos aparentados com meus trisavós e bisavós: do lado oposto da rua Mateus Leme, esquina com a mesma Carlos Cavalcanti, residia a família de Rosinha e Conrado Bührer Junior (que eram sogros do tio avô Amanzor Soffiatti). Do outro lado da atual rua Carlos Cavalcanti, residia a família de Eduardo e Olga Klas Weigert (sobrinhos de minha bisavó, Rosinha Klüppel Soffiatti). Nos fundos, pela rua Paula Gomes, a casa dividia o muro lateral com a residência da família Pilotto, que ainda hoje existe no local e pertence ao governo estadual. Pelo lado direito, na rua Carlos Cavalcanti, a casa vizinha pertencia à família de Alexandre Gutierrez.

         
¹ A atual rua presidente Carlos Cavalcanti denominou-se, sucessivamente: rua Nova do Saldanha, rua do Serrito e rua Conselheiro Barradas. 

ª Anna Reinhardt nasceu na Alemanha em 1876. Era parteira prática, formada em curso promovido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná. Foi diplomada em 29/03/1915, com certificado assinado pelos médicos Nilo Cairo e Victor Ferreira do Amaral, então diretor da Universidade. Residia na rua Inácio Lustosa, 416. 

²  Nicolau Klüppel era oficial sapateiro (schuhmacher geselle), formado pela corporação de ofícios (guilda) de sua região de origem na Prússia, conforme consta dos documentos do seu embarque no porto de Hamburgo. Nesta mesma anotação consta que a passagem de navio para o Brasil foi paga pelo lavrador Bernard Schneider, que viajou no mesmo navio, com sua mulher e filhos. Em sua chegada ao porto de São Francisco (SC), em dezembro de 1856, o escrivão fez constar sua profissão como sendo lavrador

³ Friedrich (Frederico) Schnell, também nascido na Prússia, chegou ao Brasil com 25 anos, em 1862. Constou em seu registro de desembarque que era ferreiro de profissão, mas, sempre exerceu as atividades de ourives

Obs.: Muitos imigrantes alemães com formação em corporações de ofícios, declaravam que eram lavradores ou ferreiros para embarcarem para o Brasil com passagem gratuita e obterem lotes de terra. As agências de colonização exigiam que os imigrantes trabalhassem na agricultura, ou em atividades relacionadas com esta, nas terras que eram destinadas nas colônias especialmente para este fim. Entretanto, muitos imigrantes que tinham profissões de ofício, ao chegar ao Brasil fugiam para os centros urbanos maiores para exercerem suas profissões especializadas com maiores rendimentos.   
Nas antigas corporações de ofício dos países europeus que reconheciam as guildas como instituições oficiais de ensino profissional, como a Prússia, as profissões tinham três graus de formação: os aprendizes (sehrling); os oficiais (geselle) e os mestres (meister) desde a Idade Média. Os diplomas conferiam aos seus portadores prestígio profissional e salários melhores, quando empregados. As profissões organizadas em guildas eram de exercício exclusivo dos seus membros.  

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A Casa dos Meus Avós

A casa da rua Lamenha Lins, 203, no dia da sua inauguração. A casa visível à direita pertencia ao tio-avô Antonio Chalbaud Biscaia.

A  fachada da casa vista de outro ângulo. No canto direito da foto, aparece a ponta do automóvel de meu avô, um Plymouth Special de Luxe, 1947, azul marinho, placas 20-30, apelidado de Buck Jones.  

Das melhores lembranças que guardo, uma delas é a casa da rua Lamenha Lins, número 203, em Curitiba, que pertenceu aos meus saudosos avós, Olguinha e Mario Chalbaud Biscaia. Inaugurada em julho de 1955, foi construída sobre dois lotes, desmembrados de um imóvel maior, que já pertencia à família Biscaia desde meados do século XIX, situado na confluência das ruas Doutor Pedrosa e Lamenha Lins e que foram sendo adquiridos pelos descendentes.

No início do século passado, do lado oposto da Dr. Pedrosa, existia um engenho de mate da família de Ascânio Miró, onde seu filho de mesmo nome construiu sua residência em meados dos anos 1930, há anos substituída por um grande prédio de hotel. Ao longo desta via residiam outros ervateiros, como Joaquim da Silva Sampaio, casado com Maria Carmen Chalbaud, irmã da minha bisavó, que viviam no número 134, numa mansão chamada Villa Maria, também próxima da rua Lamenha Lins, onde hoje se ergue o edifício Vitória Régia.

As antigas casas da rua Dr. Pedrosa, muitas das quais cheguei a conhecer na minha infância, já não mais existem e foram sucedidas por grandes edifícios. Ao tempo em que escrevo este post, naquela quadra da rua Lamenha Lins, restaram apenas os prédios construídos pelos tios avós Narciso e Frederico; a casa dos meus avós; a casa do advogado Arthur Faria de Macedo; e a casa do advogado João Baptista Nogueira e sua esposa Marina Chalbaud Carrano Nogueira, prima irmã de meu avô, a qual é ainda habitada por primos nossos. 

Meus bisavós, Josefina Chalbaud Biscaia e João dos Santos Biscaia, residiam na rua Doutor Pedrosa, 203 (antes número 173) onde antes viveram meu trisavô, que também se chamava João dos Santos Biscaia e minha trisavó Maria José Ribeiro, a Maricota, que ali residiu até falecer em 1921. Esta casa antiga, uma das únicas que ainda remanescem na região, foi construída por meu trisavô em meados do século XIX. Ali nasceu meu bisavô, em 1881; e mais tarde, nasceram meu avô, seus cinco irmãos e uma irmã.

Os irmãos do meu avô, Narciso e Frederico Chalbaud Biscaia construíram um prédio de apartamentos ao lado daquela casa, na esquina com a rua Lamenha Lins, em lote que pertencia à tia deles, irmã do meu bisavô, Maria dos Anjos Biscaia (a tia dos Anjos) que morreu solteira. O irmão mais velho de meu avô, Antonio Chalbaud Biscaia, no começo dos anos 1940, construiu a residência de sua família (número 213) no terreno vizinho ao qual meu avô construiria a sua própria casa.

A casa dos meus avós situava-se entre a praça Rui Barbosa, no centro, e o bairro do Batel. Na prática, tinha três andares, com um grande porão habitável. O projeto e a execução couberam à construtora do engenheiro Julio César de Souza Araújo. A casa exibia os traços elegantes da arquitetura moderna, com detalhes típicos das construções dos anos 1950. Antes da construção dessa casa, meus avós Olga e Mário, haviam residido, primeiro, com os pais de minha avó, na rua conselheiro Barradas, 626 (vide post) e depois, na casa dos pais do meu avô, na rua Dr. Pedrosa, 203. Minha avó contava que um dos momentos mais felizes de sua vida foi quando deitou-se na cama olhando o teto, após os trabalhos mudança e de arrumação da casa nova, que era só deles, pela primeira vez na vida. Na ocasião, ela estava grávida do último filho que nasceu em dezembro daquele ano.

Passei quase toda minha infância e parte da adolescência naquela casa, onde fui morar em fevereiro de 1969, quando viemos de Niterói para Curitiba. Mesmo antes disso, lembro-me da casa, quando viajávamos do Rio para Curitiba de carro, chegando à noitinha, após doze horas de estrada, um cheiro de café vinha da copa, onde meus avós nos esperavam para o jantar. Tinha quartos espaçosos, uma varanda ensolarada e um quintal com arvores frutíferas, com uma pereira, uma ameixeira e, até mesmo, uma árvore de grape-fruit, cuja muda foi presenteada ao meu avô por um amigo americano. Tinha, também, um cafeeiro viçoso, mas, que pouco florescia e dava frutos atrofiados e insípidos, no clima hostil da capital paranaense. Minha avó dedicava-se com cuidado especial ao jardim e suas flores e a uma pequena horta, nos fundos do quintal.                                       
  
Nascida numa propriedade rural em Itaperuçu, nos arredores de Curitiba, filha e neta de imigrantes alemães e italianos - das famílias Klüppel e Soffiatti -, minha avó aprendeu com eles que nada podia ser desperdiçado, sobretudo quando se tratava de alimentos. Fazia conservas e doces de todos os tipos de frutas e legumes, que guardava num armário no porão para consumir ao longo do ano. Da uva, pêssego, ameixa e outras frutas, nada se perdia. Do fruto, fazia geleias, sucos ou conservas. O bagaço, o caroço e o talo viravam adubo na horta. Nesta havia couve, alface, salsinha, cebolinha e outros. Dos legumes fazia conservas e picles. As massas, do espaguete e talharim, ao ravióli e lasanha, todas saíam de uma “máquina” à manivela, atarraxada na extremidade de uma mesa projetada para isso, após amassadas, alisadas e cortadas, com zelo e afinco. Da sua cozinha, vinham aromas que ainda sinto em minhas narinas.      


Aspectos da sala de jantar, da escada e do bar
Lembro-me do perfume e das cores interiores da casa. Das portas com relevos retangulares e da porta de correr da sala de visitas, com vidros quadrados bisotados, sempre trancada e que imitei, depois, na minha própria casa. Do cheiro de cerejeira dos móveis da sala de jantar, da cristaleira, da mesa maciça, com cadeiras cinza de encostos vazados e pernas-palito, que minha avó orgulhava-se de que foram feitos sob medida na renomada Fábrica de Móveis Paciornik, situada ali próxima, na rua Dr. Pedrosa, na mesma quadra da casa. Embaixo da escada, havia um armário embutido, misterioso para mim, onde meu avô guardava bebidas, cigarros, chapéus, sobretudos e as estranhas galochas, infalíveis em Curitiba.

Os sons da campainha da rua, das campainhas internas de serviço e do telefone de baquelite negro em cima de uma mesinha ao pé da escada, todas com seus toques característicos, ainda ressoam nos meus ouvidos. Havia rádios, com design streamline, do pós-guerra e da década de 1950, em baquelite e galalite, além de um televisor Empire com seu gabinete em madeira de lei, com portas para proteger a tela, o qual meu avô comprou na mesma semana da inauguração da transmissão de programas de televisão em Curitiba, em 1960, pela TV Paranaense - Canal 12.   

Do fundo da minha memória, o que resta da velha casa dos meus avós são as vozes, os odores, os sons, as cores e os seus próprios vultos reluzentes naquele lar em que foram felizes para sempre e onde passei parte importante de minha vida. Quando deixei a casa para morar em um apartamento em julho de 1976, num dia claro de sol aquecendo o úmido inverno curitibano, o que provocava um fenômeno de condensação que fazia as paredes "suarem" e escorrerem, minha avó me disse que "eram as lágrimas da casa, que chorava a nossa partida". 

Por vezes ali retorno e vago pelos seus ambientes em visões diáfanas, nos meus sonhos mais profundos. Embora ainda pertença à nossa família, destinada a outros fins e muito desfigurada de sua aparência original, nunca mais tive a coragem de revisitar a casa da minha infância. 

domingo, 12 de maio de 2019

Voar Com Asas Brasileiras

Desenho de propaganda oficial sobre o Muniz M-9
Aeronave Muniz M-9 fabricada no Brasil em 1939


Há oitenta anos, no dia 25 de abril de 1939, na ilha do Engenho, situada na baía da Guanabara, a Fábrica Brasileira de Aviões, sucessora da Companhia Nacional de Navegação Aérea (a primeira fábrica de aviões do Brasil), entregava ao Exército as cinco primeiras unidades do modelo M-9, que vinha com um motor mais potente e alguns aperfeiçoamentos técnicos em relação ao modelo anterior, o M-7, o primeiro avião fabricado em série no Brasil, com muitos componentes nacionais. O novo modelo era equipado com um motor britânico De Havilland Gipsy, de 200 HP, com seis cilindros em linha, refrigerado a ar. O avião foi idealizado pelo oficial da aviação militar, Antonio Guedes Muniz. O vôo inaugural das aeronaves, inclusive com manobras aéreas, foi realizado por um grupo de oficiais aviadores do Exército brasileiro, entre os quais meu avô, na ocasião primeiro tenente aviador Arthur Carlos Peralta. Acima estão fotos do modelo e a notícia publicada no jornal Correio da Manhã.

Esses aviões e a empresa que os fabricava foram precursores da produção nacional de aeronaves que, décadas mais tarde, com o surgimento do Instituto Tecnológico de Aeronáutica e da Embraer, tornariam a engenharia aeronáutica brasileira reconhecida mundialmente e os aviões fabricados no Brasil, com qualidade e excelência respeitada internacionalmente, voariam em países de todos os continentes.     

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Mario Chalbaud Biscaia e o Club Atlhetico Paranaense

Novembro de 1947: Ofício do presidente João Alfredo Silva convocando Mário Biscaia para assumir a presidência interina do CAP. 

O Dia - 23/12/1931

Diário da Tarde - 14/01/1933


O Dia - 28/12/1945: A manchete das vésperas da conquista do campeonato de 1945 pelo CAP
1945

1947

1948

Homenagem da Associação dos Cronistas Esportivos do Paraná (ACEP) aos principais dirigentes do futebol paranaense. (Diário da Tarde - 27/01/1949)

Nestes tempos em que os modismos e os marqueteiros trazem de volta as velhas grafias de nomes de times de futebol e, bem assim, camisas antigas entre outros badulaques, ditos vintage, resolvi republicar este post que mostra um pequeno flash back da trajetória do meu avô Mario Chalbaud Biscaia no seio do seu time favorito. O Club Athletico Paranaense, nosso velho e querido CAP, em fins do ano de 2018, às vésperas da notável conquista do seu primeiro título internacional e continental, a Copa Sul Americana, mudou seu escudo e voltou a usar o nome que tinha quando meu avô iniciou sua carreira como jogador amador e como dirigente do clube da Baixada do Rio Água Verde, na rua Buenos Aires, há mais de 85 anos.

Sem dar palpite, nem entrar no mérito das conveniências mercadológicas dessas mudanças, de fato, nenhuma novidade há nesta versão do nome do time, lembrando o aforismo latino, sempre estampado nas reedições de livros antigos ou esgotados: non nova, sed nove; ou seja: nada de novo, mas, de novo, novamente. Como se pode observar nos recortes de jornal acima, do início da década de 1930, a ortografia exigia o uso do "th" e a palavra clube ainda era um estrangeirismo escrito com "b" mudo. Seu arquirrival, o Coritiba FootBall Club nunca abandonou a grafia original do nome com o qual foi fundado no início do século XX, quando Curitiba se escrevia Coritiba.

Meu avô, Mario Chalbaud Biscaia, nutria algumas grandes paixões na sua vida, além de sua família: duas delas eram o futebol e o Club Atlhetico Paranaense, o seu sempre glorioso Furacão. A outra veio mais tarde: a Associação Paranaense de Reabilitação (APR) da qual foi um dos fundadores, na década de 1950, tendo sido um associado incansável e benemérito. 

Em novembro de 1947, Mário Biscaia assumiu a presidência do Atlético Paranaense por alguns meses, em decorrência do impedimento temporário do presidente João Alfredo Silva. Seria a primeira de muitas interinidades como vice-presidente, entre 1947 e 1949. Nesta época, a grafia do nome do CAP já havia se modernizado com a nova ortografia em vigor, como se pode notar no papel timbrado do clube, na foto inicial. 

Mário Biscaia ocupou cargos na diretoria do Atlético, em praticamente todas as gestões do clube entre 1931 e 1968, incluindo os tempos do Atlhetico médio, uma espécie de departamento juvenil da agremiação. Na diretoria do CAP foi secretário-geral e, por diversas gestões, foi o incansável tesoureiro do clube, em épocas de grandes dificuldades financeiras. Foi ainda vice-presidente e presidente interino.

Ele dirigiu o departamento de futebol profissional do CAP, que hoje corresponde ao cargo de diretor de futebol, durante os campeonatos vitoriosos de 1945 e de 1949, quando o clube  recebeu o título de Furacão, apelido pelo qual é conhecido em todo  Brasil.

O livro Atletiba, A Paixão das Multidões, escrito por dois conhecidos e respeitados jornalistas esportivos do Paraná, Vinicius Coelho e Carneiro Neto, conta a história da conquista do emblemático título de 1949, cuja preparação começara em 1948, na gestão do presidente João Alfredo Silva, na qual meu avô foi vice-presidente e quando aconteceram várias contratações dos melhores jogadores da época. E, continua o livro: "No ano seguinte, tendo Itaciano Marcondes na presidência e Mário Biscaia como diretor de futebol, o Atlético fez por merecer o título de 'O Furacão'." (grifei) *

Em 24/06/1999, dia da inauguração da Arena da Baixada (que precedeu e deu origem ao atual estádio magnífico, construído para a Copa do Mundo FIFA de 2014 no Brasil) a coincidência do destino me fez sentar na cadeira ao lado da filha do presidente Itaciano Marcondes. Ali, no mesmo local, 50 anos depois da conquista do título de Furacão, estavam sentados lado a lado na arquibancada, a filha e o neto de dois homens que fizeram parte da história gloriosa do CAP e construíram os alicerces dos novos tempos. 

A notória indiferença de sucessivas gestões do clube nas últimas décadas em relação à memória do CAP, que alguns gostariam simplesmente de apagar da história, relegou ao esquecimento muitos daqueles obstinados e abnegados dirigentes do passado, que edificaram os pilares dessa agremiação para as conquistas do presente.

Qualquer que seja o modo que seu nome seja escrito, a grafia, os modismos, as pessoas e os dirigentes sempre passam e, fatalmente, serão esquecidos, mas, a paixão pelo nosso velho Furacão permanecerá  intacta e para sempre escrita da mesma forma. E, para terminar, como dizia meu avô: "Futebol é bola na rede. O resto é conversa fiada para boi dormir".

*Atletiba, A Paixão das Multidões; Vinicius Coelho e Carneiro Neto; editora Fundação Cultural de Curitiba; 1994; página  67. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Família Avellar: A Gripe Espanhola - 1918



Manchete do jornal Correio Paulistano de 11 de novembro de 1918.

Notícia do falecimento de Maria José Ribeiro de Avellar e seu irmão Ângelo Ribeiro de Avellar, em decorrência da gripe espanhola (Correio Paulistano - 11/11/1918)

Convite de minha trisavó Leocádia de Avellar Simões, marido e filhos, sua irmã Emerenciana de Avellar Barbosa e sua tia Josephina Calvet, para a missa de sétimo dia de seu irmão João. (Correio da Manhã - 26/11/1918)

Convite da viúva e seus filhos João e Paulo para a missa pelo falecimento de João Gomes Ribeiro de Avellar e dos filhos Angelo e Maria José (Correio da Manhã - 24/12/1918)
Não há como terminar este ano sem relembrar uma das maiores catástrofes da história moderna da civilização, ocorrido há cem anos. A gripe espanhola, como ficou conhecida, teve seu trágico início em um campo de treinamento de soldados americanos no estado do Kansas, no interior dos EUA, com o aparecimento de uma cepa mortífera do vírus da gripe Influenza A. Com o deslocamento das tropas no teatro europeu, ao longo dos últimos meses da Primeira Guerra Mundial e o regresso destas aos seus países, após seu término, a gripe transformou-se numa pandemia global que matou mais pessoas que a própria guerra, afetando cerca de 50% da população do planeta.

No Brasil, a pandemia surgiu e, rapidamente, atingiu seu ápice em novembro e dezembro de 1918, ceifando a vida de mais de 35 mil pessoas, especialmente, em São Paulo e no Rio de Janeiro, as maiores cidades do país. O escasso conhecimento da época sobre as causas, as formas de contágio e o tratamento desta enfermidade letal era motivo de desesperança para os doentes, seus familiares e os profissionais da saúde envolvidos no seu combate. Como todas as pandemias causadas por vírus, após alguns ciclos de expansão e retração, ela desapareceu em fins de 1919, deixando um rastro de muitas dezenas de milhões de mortos, de sofrimento e de famílias devastadas.   

Minhas pesquisas revelaram um triste episódio na família Avellar, causado pela terrível pandemia, que provocou a morte de três pessoas - o pai, um filho e uma filha - num espaço de alguns dias. João Gomes Ribeiro de Avellar (filho homônimo de Jaco e neto homônimo do visconde da Paraíba) morava em São Paulo, onde era funcionário do Banco do Brasil. João era um dos irmãos mais novos de minha trisavó Leocádia Calvet de Avellar Simões. Em meados de novembro de 1918, em dois dias seguidos, sucumbiram em decorrência da gripe, dois dos quatro filhos de João: Ângelo Ribeiro de Avellar e Maria José Ribeiro de Avellar, com 20 e 19 anos, respectivamente. O próprio João seria vitimado pela gripe nos dias seguintes, com 44 anos de idade. Foi uma tragédia familiar que não podia ser esquecida neste ano do seu centenário. 

Entre os recortes de jornais daquela época, acima, destaca-se o comovente convite para a missa "pelo descanso eterno das almas" de João e seus dois filhos, mandada celebrar pela viúva, Maria Isabel Ângelo de Avellar e seus dois outros filhos, João e Paulo, e pelo sogro Manoel Lopes Ângelo, no dia 24 de dezembro de 1918, uma véspera de Natal como hoje, há exatos cem anos.