terça-feira, 26 de maio de 2020

O Dirigível Hindenburg em Curitiba - 1936

Neste ano completam-se 90 anos da primeira viagem do dirigível alemão LZ 127 Graf Zeppelin ao Brasil, que atracou em Recife (PE), em 22 de  maio de 1930. Três dias depois, em 25 de maio, chegava ao Rio de Janeiro, então capital federal, deslumbrando os cariocas. 

Irmão mais novo do Zeppelin, o dirigível LZ 129 Hindenburg, batizado em homenagem ao ex-presidente da Alemanha, Otto Von Hindenburg, iniciou as viagens ao Brasil em 1936, como parte da propaganda nazista dirigida à América do Sul. A aeronave sobrevoou o sul do Brasil e aqui aparece nos céus de Curitiba passando sobre o antigo edifício da Universidade do Paraná, na praça Santos Andrade, em 2 de dezembro de 1936. O relógio do prédio dos Correios, no canto esquerdo da foto, parece marcar o horário de 08:30h.

No ano seguinte, em 6 de maio, foi destruída numa explosão ocorrida durante os trabalhos de atracação, na base aeronaval de Lakehurst (NJ) nos EUA. O desastre pôs fim à glamorosa era dos dirigíveis de transporte intercontinental de passageiros. A foto-postal pertencia à minha avó Olga Soffiatti Biscaia.    


sábado, 11 de abril de 2020

O Atleta Número 1 do Tijuca Tênis Clube e o Troféu Peralta

1956
1966
1936

1936

1936

Convocação da seleção carioca de basquete em 1934
Convocação da seleção carioca em 1935
Meu avô, Arthur Carlos Peralta, foi um esportista modelo, um atleta padrão em seu tempo. Destacou-se em quase todas as principais modalidades esportivas da sua época, mas, foi com o basquete que obteve suas maiores glórias e consagrou-se com renome nacional. Sua performance neste esporte foi motivo de muitos prêmios, troféus e homenagens em torneios e campeonatos durante a década de 1930, quando o circuito esportivo nacional relevante era restrito ao eixo Rio-São Paulo, com grande e óbvia ênfase para a cidade carioca, que  então era a capital da República e centro dos clubes esportivos mais importantes do Brasil.

Foi competindo pelo laureado Tijuca Tênis Clube, o famoso grêmio cajuti, um dos mais tradicionais clubes do Rio de Janeiro, que ele conquistou o maior número de prêmios e vitórias, tornando-se, oficialmente, o mais importante atleta de um longo período da história daquela agremiação. Arthur Carlos Peralta recebeu do conselho deliberativo do Tijuca Tênis Clube o título honorifico de Atleta Número 1 e, em 11 de junho de 1956, o clube instituiu em sua homenagem o Troféu Peralta, que passou a ser concedido, anualmente, aos atletas que mais se destacavam nas varias modalidades esportivas do clube e que atendessem plenamente aos critérios de dedicação, disciplina e eficiência. Desde então, o Troféu Peralta foi incorporado ao Estatuto do Tijuca Tênis Clube, no seu artigo 131, abaixo reproduzido:



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Família Klüppel Soffiatti: Uma Casa e Quatro Gerações

A casa de Rosinha e Guerino Soffiatti em foto do final da década de 1940. Ao fundo, à esquerda na foto, é possível ver a silhueta da fachada da residência de Rosinha e Conrado Bührer Junior, na esquina oposta da rua Mateus Leme com a atual rua Presidente Carlos Cavalcanti. A casa visível no canto direito da foto pertencia à família de Alexandre Gutierrez, na época.  

A casa de duas fachadas da foto pertenceu aos meus trisavós Carolina e Nicolau Klüppel em Curitiba, situada no número 626/636 (antes número 112/114) da antiga rua conselheiro Barradas¹ (atual presidente Carlos Cavalcanti), na esquina com a rua Mateus Leme. O imóvel estendia-se até a esquina com a rua Paula Gomes. Esta casa foi herdada pelos meus bisavós Rosa Klüppel Soffiatti e Guerino Soffiatti, que adquiriram as partes dos demais herdeiros e ali passaram a residir, a partir de meados da década de 1920. 

Foi, ainda, morada de meus avós Olga e Mario Chalbaud Biscaia, nos primeiros anos do seu casamento. Nesta casa, numa noite de lua nova de inverno, com a assistência da conhecida parteira Anna Reinhardtª, nasceu minha mãe, Maria do Rocio Soffiatti Biscaia. O médico Bernardo Leinig, casado com sua tia-avó Julia Chalbaud Leinig estava presente e supervisionou o parto, na ocasião.

Ata da sessão da Câmara Municipal de Curitiba que concedeu a carta de data do terreno para Nicolau Klüppel, em 1862. 
Pelo menos parte do terreno onde a casa estava edificada fora adquirido por Nicolau Klüppel, mediante carta de data da Câmara Municipal de Curitiba, concedida em 16/01/1862, quando o logradouro denominava-se "rua nova do Saldanha". Como era comum naqueles tempos, os proprietários utilizavam-se das suas construções para suas atividades profissionais² e para residência de sua família. Costumava-se, também, alugar quando havia espaços ociosos: a oficina de ourives de Frederico Schnell³ estabeleceu-se neste local, a partir de 1866.

Relação das sapatarias de Curitiba - Almanak da Província do Paraná - 1876

Anúncio da oficina de ourives de Frederico Schnell em O Dezenove de Dezembro - 1866

Pouco antes de falecer em 1950, meu bisavô Guerino Soffiatti vendeu o imóvel. No seu lugar foi construído o edifício Mateus Leme, com quatro pavimentos, por incorporação do tio-avô Evaristo Chalbaud Biscaia, juntamente com Mario Affonso Alves de Camargo e Percy Eduardo Isaacson. É das únicas edificações daquele trecho da rua Mateus Leme que respeita um recuo para o alargamento da via que jamais ocorreu.

Na sua vizinhança residiam famílias descendentes de germânicos, quase todos aparentados com meus trisavós e bisavós: do lado oposto da rua Mateus Leme, esquina com a mesma Carlos Cavalcanti, residia a família de Rosinha e Conrado Bührer Junior (que eram sogros do tio avô Amanzor Soffiatti). Do outro lado da atual rua Carlos Cavalcanti, residia a família de Eduardo e Olga Klas Weigert (sobrinhos de minha bisavó, Rosinha Klüppel Soffiatti). Nos fundos, pela rua Paula Gomes, a casa dividia o muro lateral com a residência da família Pilotto, que ainda hoje existe no local e pertence ao governo estadual. Pelo lado direito, na rua Carlos Cavalcanti, a casa vizinha pertencia à família de Alexandre Gutierrez.

         
¹ A atual rua presidente Carlos Cavalcanti denominou-se, sucessivamente: rua Nova do Saldanha, rua do Serrito e rua Conselheiro Barradas. 

ª Anna Reinhardt nasceu na Alemanha em 1876. Era parteira prática, formada em curso promovido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná. Foi diplomada em 29/03/1915, com certificado assinado pelos médicos Nilo Cairo e Victor Ferreira do Amaral, então diretor da Universidade. Residia na rua Inácio Lustosa, 416. 

²  Nicolau Klüppel era oficial sapateiro (schuhmacher geselle), formado pela corporação de ofícios (guilda) de sua região de origem na Prússia, conforme consta dos documentos do seu embarque no porto de Hamburgo. Nesta mesma anotação consta que a passagem de navio para o Brasil foi paga pelo lavrador Bernard Schneider, que viajou no mesmo navio, com sua mulher e filhos. Em sua chegada ao porto de São Francisco (SC), em dezembro de 1856, o escrivão fez constar sua profissão como sendo lavrador

³ Friedrich (Frederico) Schnell, também nascido na Prússia, chegou ao Brasil com 25 anos, em 1862. Constou em seu registro de desembarque que era ferreiro de profissão, mas, sempre exerceu as atividades de ourives

Obs.: Muitos imigrantes alemães com formação em corporações de ofícios, declaravam que eram lavradores ou ferreiros para embarcarem para o Brasil com passagem gratuita e obterem lotes de terra. As agências de colonização exigiam que os imigrantes trabalhassem na agricultura, ou em atividades relacionadas com esta, nas terras que eram destinadas nas colônias especialmente para este fim. Entretanto, muitos imigrantes que tinham profissões de ofício, ao chegar ao Brasil fugiam para os centros urbanos maiores para exercerem suas profissões especializadas com maiores rendimentos.   
Nas antigas corporações de ofício dos países europeus que reconheciam as guildas como instituições oficiais de ensino profissional, como a Prússia, as profissões tinham três graus de formação: os aprendizes (sehrling); os oficiais (geselle) e os mestres (meister) desde a Idade Média. Os diplomas conferiam aos seus portadores prestígio profissional e salários melhores, quando empregados. As profissões organizadas em guildas eram de exercício exclusivo dos seus membros.  

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A Casa dos Meus Avós

A casa da rua Lamenha Lins, 203, no dia da sua inauguração. A casa visível à direita pertencia ao tio-avô Antonio Chalbaud Biscaia.

A  fachada da casa vista de outro ângulo. No canto direito da foto, aparece a ponta do automóvel de meu avô, um Plymouth Special de Luxe, 1947, azul marinho, placas 20-30, apelidado de Buck Jones.  

Das melhores lembranças que guardo, uma delas é a casa da rua Lamenha Lins, número 203, em Curitiba, que pertenceu aos meus saudosos avós, Olguinha e Mario Chalbaud Biscaia. Inaugurada em julho de 1955, foi construída sobre dois lotes, desmembrados de um imóvel maior, que já pertencia à família Biscaia desde meados do século XIX, situado na confluência das ruas Doutor Pedrosa e Lamenha Lins e que foram sendo adquiridos pelos descendentes.

No início do século passado, do lado oposto da Dr. Pedrosa, existia um engenho de mate da família de Ascânio Miró, onde seu filho de mesmo nome construiu sua residência em meados dos anos 1930, há anos substituída por um grande prédio de hotel. Ao longo desta via residiam outros ervateiros, como Joaquim da Silva Sampaio, casado com Maria Carmen Chalbaud, irmã da minha bisavó, que viviam no número 134, numa mansão chamada Villa Maria, também próxima da rua Lamenha Lins, onde hoje se ergue o edifício Vitória Régia.

As antigas casas da rua Dr. Pedrosa, muitas das quais cheguei a conhecer na minha infância, já não mais existem e foram sucedidas por grandes edifícios. Ao tempo em que escrevo este post, naquela quadra da rua Lamenha Lins, restaram apenas os prédios construídos pelos tios avós Narciso e Frederico; a casa dos meus avós; a casa do advogado Arthur Faria de Macedo; e a casa do advogado João Baptista Nogueira e sua esposa Marina Chalbaud Carrano Nogueira, prima irmã de meu avô, a qual é ainda habitada por primos nossos. 

Meus bisavós, Josefina Chalbaud Biscaia e João dos Santos Biscaia, residiam na rua Doutor Pedrosa, 203 (antes número 173) onde antes viveram meu trisavô, que também se chamava João dos Santos Biscaia e minha trisavó Maria José Ribeiro, a Maricota, que ali residiu até falecer em 1921. Esta casa antiga, uma das únicas que ainda remanescem na região, foi construída por meu trisavô em meados do século XIX. Ali nasceu meu bisavô, em 1881; e mais tarde, nasceram meu avô, seus cinco irmãos e uma irmã.

Os irmãos do meu avô, Narciso e Frederico Chalbaud Biscaia construíram um prédio de apartamentos ao lado daquela casa, na esquina com a rua Lamenha Lins, em lote que pertencia à tia deles, irmã do meu bisavô, Maria dos Anjos Biscaia (a tia dos Anjos) que morreu solteira. O irmão mais velho de meu avô, Antonio Chalbaud Biscaia, no começo dos anos 1940, construiu a residência de sua família (número 213) no terreno vizinho ao qual meu avô construiria a sua própria casa.

A casa dos meus avós situava-se entre a praça Rui Barbosa, no centro, e o bairro do Batel. Na prática, tinha três andares, com um grande porão habitável. O projeto e a execução couberam à construtora do engenheiro Julio César de Souza Araújo. A casa exibia os traços elegantes da arquitetura moderna, com detalhes típicos das construções dos anos 1950. Antes da construção dessa casa, meus avós Olga e Mário, haviam residido, primeiro, com os pais de minha avó, na rua conselheiro Barradas, 626 (vide post) e depois, na casa dos pais do meu avô, na rua Dr. Pedrosa, 203. Minha avó contava que um dos momentos mais felizes de sua vida foi quando deitou-se na cama olhando o teto, após os trabalhos mudança e de arrumação da casa nova, que era só deles, pela primeira vez na vida. Na ocasião, ela estava grávida do último filho que nasceu em dezembro daquele ano.

Passei quase toda minha infância e parte da adolescência naquela casa, onde fui morar em fevereiro de 1969, quando viemos de Niterói para Curitiba. Mesmo antes disso, lembro-me da casa, quando viajávamos do Rio para Curitiba de carro, chegando à noitinha, após doze horas de estrada, um cheiro de café vinha da copa, onde meus avós nos esperavam para o jantar. Tinha quartos espaçosos, uma varanda ensolarada e um quintal com arvores frutíferas, com uma pereira, uma ameixeira e, até mesmo, uma árvore de grape-fruit, cuja muda foi presenteada ao meu avô por um amigo americano. Tinha, também, um cafeeiro viçoso, mas, que pouco florescia e dava frutos atrofiados e insípidos, no clima hostil da capital paranaense. Minha avó dedicava-se com cuidado especial ao jardim e suas flores e a uma pequena horta, nos fundos do quintal.                                       
  
Nascida numa propriedade rural em Itaperuçu, nos arredores de Curitiba, filha e neta de imigrantes alemães e italianos - das famílias Klüppel e Soffiatti -, minha avó aprendeu com eles que nada podia ser desperdiçado, sobretudo quando se tratava de alimentos. Fazia conservas e doces de todos os tipos de frutas e legumes, que guardava num armário no porão para consumir ao longo do ano. Da uva, pêssego, ameixa e outras frutas, nada se perdia. Do fruto, fazia geleias, sucos ou conservas. O bagaço, o caroço e o talo viravam adubo na horta. Nesta havia couve, alface, salsinha, cebolinha e outros. Dos legumes fazia conservas e picles. As massas, do espaguete e talharim, ao ravióli e lasanha, todas saíam de uma “máquina” à manivela, atarraxada na extremidade de uma mesa projetada para isso, após amassadas, alisadas e cortadas, com zelo e afinco. Da sua cozinha, vinham aromas que ainda sinto em minhas narinas.      


Aspectos da sala de jantar, da escada e do bar
Lembro-me do perfume e das cores interiores da casa. Das portas com relevos retangulares e da porta de correr da sala de visitas, com vidros quadrados bisotados, sempre trancada e que imitei, depois, na minha própria casa. Do cheiro de cerejeira dos móveis da sala de jantar, da cristaleira, da mesa maciça, com cadeiras cinza de encostos vazados e pernas-palito, que minha avó orgulhava-se de que foram feitos sob medida na renomada Fábrica de Móveis Paciornik, situada ali próxima, na rua Dr. Pedrosa, na mesma quadra da casa. Embaixo da escada, havia um armário embutido, misterioso para mim, onde meu avô guardava bebidas, cigarros, chapéus, sobretudos e as estranhas galochas, infalíveis em Curitiba.

Os sons da campainha da rua, das campainhas internas de serviço e do telefone de baquelite negro em cima de uma mesinha ao pé da escada, todas com seus toques característicos, ainda ressoam nos meus ouvidos. Havia rádios, com design streamline, do pós-guerra e da década de 1950, em baquelite e galalite, além de um televisor Empire com seu gabinete em madeira de lei, com portas para proteger a tela, o qual meu avô comprou na mesma semana da inauguração da transmissão de programas de televisão em Curitiba, em 1960, pela TV Paranaense - Canal 12.   

Do fundo da minha memória, o que resta da velha casa dos meus avós são as vozes, os odores, os sons, as cores e os seus próprios vultos reluzentes naquele lar em que foram felizes para sempre e onde passei parte importante de minha vida. Quando deixei a casa para morar em um apartamento em julho de 1976, num dia claro de sol aquecendo o úmido inverno curitibano, o que provocava um fenômeno de condensação que fazia as paredes "suarem" e escorrerem, minha avó me disse que "eram as lágrimas da casa, que chorava a nossa partida". 

Por vezes ali retorno e vago pelos seus ambientes em visões diáfanas, nos meus sonhos mais profundos. Embora ainda pertença à nossa família, destinada a outros fins e muito desfigurada de sua aparência original, nunca mais tive a coragem de revisitar a casa da minha infância. 

domingo, 12 de maio de 2019

Voar Com Asas Brasileiras

Desenho de propaganda oficial sobre o Muniz M-9
Aeronave Muniz M-9 fabricada no Brasil em 1939


Há oitenta anos, no dia 25 de abril de 1939, na ilha do Engenho, situada na baía da Guanabara, a Fábrica Brasileira de Aviões, sucessora da Companhia Nacional de Navegação Aérea (a primeira fábrica de aviões do Brasil), entregava ao Exército as cinco primeiras unidades do modelo M-9, que vinha com um motor mais potente e alguns aperfeiçoamentos técnicos em relação ao modelo anterior, o M-7, o primeiro avião fabricado em série no Brasil, com muitos componentes nacionais. O novo modelo era equipado com um motor britânico De Havilland Gipsy, de 200 HP, com seis cilindros em linha, refrigerado a ar. O avião foi idealizado pelo oficial da aviação militar, Antonio Guedes Muniz. O vôo inaugural das aeronaves, inclusive com manobras aéreas, foi realizado por um grupo de oficiais aviadores do Exército brasileiro, entre os quais meu avô, na ocasião primeiro tenente aviador Arthur Carlos Peralta. Acima estão fotos do modelo e a notícia publicada no jornal Correio da Manhã.

Esses aviões e a empresa que os fabricava foram precursores da produção nacional de aeronaves que, décadas mais tarde, com o surgimento do Instituto Tecnológico de Aeronáutica e da Embraer, tornariam a engenharia aeronáutica brasileira reconhecida mundialmente e os aviões fabricados no Brasil, com qualidade e excelência respeitada internacionalmente, voariam em países de todos os continentes.     

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Mario Chalbaud Biscaia e o Club Atlhetico Paranaense

Novembro de 1947: Ofício do presidente João Alfredo Silva convocando Mário Biscaia para assumir a presidência interina do CAP. 

O Dia - 23/12/1931

Diário da Tarde - 14/01/1933


O Dia - 28/12/1945: A manchete das vésperas da conquista do campeonato de 1945 pelo CAP
1945

1947

1948

Homenagem da Associação dos Cronistas Esportivos do Paraná (ACEP) aos principais dirigentes do futebol paranaense. (Diário da Tarde - 27/01/1949)

Nestes tempos em que os modismos e os marqueteiros trazem de volta as velhas grafias de nomes de times de futebol e, bem assim, camisas antigas entre outros badulaques, ditos vintage, resolvi republicar este post que mostra um pequeno flash back da trajetória do meu avô Mario Chalbaud Biscaia no seio do seu time favorito. O Club Athletico Paranaense, nosso velho e querido CAP, em fins do ano de 2018, às vésperas da notável conquista do seu primeiro título internacional e continental, a Copa Sul Americana, mudou seu escudo e voltou a usar o nome que tinha quando meu avô iniciou sua carreira como jogador amador e como dirigente do clube da Baixada do Rio Água Verde, na rua Buenos Aires, há mais de 85 anos.

Sem dar palpite, nem entrar no mérito das conveniências mercadológicas dessas mudanças, de fato, nenhuma novidade há nesta versão do nome do time, lembrando o aforismo latino, sempre estampado nas reedições de livros antigos ou esgotados: non nova, sed nove; ou seja: nada de novo, mas, de novo, novamente. Como se pode observar nos recortes de jornal acima, do início da década de 1930, a ortografia exigia o uso do "th" e a palavra clube ainda era um estrangeirismo escrito com "b" mudo. Seu arquirrival, o Coritiba FootBall Club nunca abandonou a grafia original do nome com o qual foi fundado no início do século XX, quando Curitiba se escrevia Coritiba.

Meu avô, Mario Chalbaud Biscaia, nutria algumas grandes paixões na sua vida, além de sua família: duas delas eram o futebol e o Club Atlhetico Paranaense, o seu sempre glorioso Furacão. A outra veio mais tarde: a Associação Paranaense de Reabilitação (APR) da qual foi um dos fundadores, na década de 1950, tendo sido um associado incansável e benemérito. 

Em novembro de 1947, Mário Biscaia assumiu a presidência do Atlético Paranaense por alguns meses, em decorrência do impedimento temporário do presidente João Alfredo Silva. Seria a primeira de muitas interinidades como vice-presidente, entre 1947 e 1949. Nesta época, a grafia do nome do CAP já havia se modernizado com a nova ortografia em vigor, como se pode notar no papel timbrado do clube, na foto inicial. 

Mário Biscaia ocupou cargos na diretoria do Atlético, em praticamente todas as gestões do clube entre 1931 e 1968, incluindo os tempos do Atlhetico médio, uma espécie de departamento juvenil da agremiação. Na diretoria do CAP foi secretário-geral e, por diversas gestões, foi o incansável tesoureiro do clube, em épocas de grandes dificuldades financeiras. Foi ainda vice-presidente e presidente interino.

Ele dirigiu o departamento de futebol profissional do CAP, que hoje corresponde ao cargo de diretor de futebol, durante os campeonatos vitoriosos de 1945 e de 1949, quando o clube  recebeu o título de Furacão, apelido pelo qual é conhecido em todo  Brasil.

O livro Atletiba, A Paixão das Multidões, escrito por dois conhecidos e respeitados jornalistas esportivos do Paraná, Vinicius Coelho e Carneiro Neto, conta a história da conquista do emblemático título de 1949, cuja preparação começara em 1948, na gestão do presidente João Alfredo Silva, na qual meu avô foi vice-presidente e quando aconteceram várias contratações dos melhores jogadores da época. E, continua o livro: "No ano seguinte, tendo Itaciano Marcondes na presidência e Mário Biscaia como diretor de futebol, o Atlético fez por merecer o título de 'O Furacão'." (grifei) *

Em 24/06/1999, dia da inauguração da Arena da Baixada (que precedeu e deu origem ao atual estádio magnífico, construído para a Copa do Mundo FIFA de 2014 no Brasil) a coincidência do destino me fez sentar na cadeira ao lado da filha do presidente Itaciano Marcondes. Ali, no mesmo local, 50 anos depois da conquista do título de Furacão, estavam sentados lado a lado na arquibancada, a filha e o neto de dois homens que fizeram parte da história gloriosa do CAP e construíram os alicerces dos novos tempos. 

A notória indiferença de sucessivas gestões do clube nas últimas décadas em relação à memória do CAP, que alguns gostariam simplesmente de apagar da história, relegou ao esquecimento muitos daqueles obstinados e abnegados dirigentes do passado, que edificaram os pilares dessa agremiação para as conquistas do presente.

Qualquer que seja o modo que seu nome seja escrito, a grafia, os modismos, as pessoas e os dirigentes sempre passam e, fatalmente, serão esquecidos, mas, a paixão pelo nosso velho Furacão permanecerá  intacta e para sempre escrita da mesma forma. E, para terminar, como dizia meu avô: "Futebol é bola na rede. O resto é conversa fiada para boi dormir".

*Atletiba, A Paixão das Multidões; Vinicius Coelho e Carneiro Neto; editora Fundação Cultural de Curitiba; 1994; página  67. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Família Avellar: A Gripe Espanhola - 1918



Manchete do jornal Correio Paulistano de 11 de novembro de 1918.

Notícia do falecimento de Maria José Ribeiro de Avellar e seu irmão Ângelo Ribeiro de Avellar, em decorrência da gripe espanhola (Correio Paulistano - 11/11/1918)

Convite de minha trisavó Leocádia de Avellar Simões, marido e filhos, sua irmã Emerenciana de Avellar Barbosa e sua tia Josephina Calvet, para a missa de sétimo dia de seu irmão João. (Correio da Manhã - 26/11/1918)

Convite da viúva e seus filhos João e Paulo para a missa pelo falecimento de João Gomes Ribeiro de Avellar e dos filhos Angelo e Maria José (Correio da Manhã - 24/12/1918)
Não há como terminar este ano sem relembrar uma das maiores catástrofes da história moderna da civilização, ocorrido há cem anos. A gripe espanhola, como ficou conhecida, teve seu trágico início em um campo de treinamento de soldados americanos no estado do Kansas, no interior dos EUA, com o aparecimento de uma cepa mortífera do vírus da gripe Influenza A. Com o deslocamento das tropas no teatro europeu, ao longo dos últimos meses da Primeira Guerra Mundial e o regresso destas aos seus países, após seu término, a gripe transformou-se numa pandemia global que matou mais pessoas que a própria guerra, afetando cerca de 50% da população do planeta.

No Brasil, a pandemia surgiu e, rapidamente, atingiu seu ápice em novembro e dezembro de 1918, ceifando a vida de mais de 35 mil pessoas, especialmente, em São Paulo e no Rio de Janeiro, as maiores cidades do país. O escasso conhecimento da época sobre as causas, as formas de contágio e o tratamento desta enfermidade letal era motivo de desesperança para os doentes, seus familiares e os profissionais da saúde envolvidos no seu combate. Como todas as pandemias causadas por vírus, após alguns ciclos de expansão e retração, ela desapareceu em fins de 1919, deixando um rastro de muitas dezenas de milhões de mortos, de sofrimento e de famílias devastadas.   

Minhas pesquisas revelaram um triste episódio na família Avellar, causado pela terrível pandemia, que provocou a morte de três pessoas - o pai, um filho e uma filha - num espaço de alguns dias. João Gomes Ribeiro de Avellar (filho homônimo de Jaco e neto homônimo do visconde da Paraíba) morava em São Paulo, onde era funcionário do Banco do Brasil. João era um dos irmãos mais novos de minha trisavó Leocádia Calvet de Avellar Simões. Em meados de novembro de 1918, em dois dias seguidos, sucumbiram em decorrência da gripe, dois dos quatro filhos de João: Ângelo Ribeiro de Avellar e Maria José Ribeiro de Avellar, com 20 e 19 anos, respectivamente. O próprio João seria vitimado pela gripe nos dias seguintes, com 44 anos de idade. Foi uma tragédia familiar que não podia ser esquecida neste ano do seu centenário. 

Entre os recortes de jornais daquela época, acima, destaca-se o comovente convite para a missa "pelo descanso eterno das almas" de João e seus dois filhos, mandada celebrar pela viúva, Maria Isabel Ângelo de Avellar e seus dois outros filhos, João e Paulo, e pelo sogro Manoel Lopes Ângelo, no dia 24 de dezembro de 1918, uma véspera de Natal como hoje, há exatos cem anos. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Rosinha Klüppel e Guerino Soffiatti

Rosinha Klüppel 

Guerino Soffiatti

Meus bisavós Rosa Klüppel e Guerino Soffiatti. Ela filha de Carolina Probst e Nicolau Klüppel, nascida em Curitiba, em 1884. Ele filho de Pasqua Letizia Trevisani e Attilio Soffiatti, nascido em Correzzo, na província de Verona, Itália, em 1880. Casaram-se em 19/01/1901, na matriz do Senhor Bom Jesus dos Passos, em vila Deodoro, hoje Piraquara, município vizinho de Curitiba, onde os pais de Rosinha residiam na ocasião. Tiveram oito filhos, entre eles minha avó, Olga Soffiatti Biscaia, a caçula.  Guerino faleceu em 1950 e Rosinha em 1963. As fotos são da época do casamento.

Contam as histórias de família que Guerino apaixonou-se por Rosinha à primeira vista, mas, seu futuro sogro não permitia o namoro. Guerino, então, levou um banquinho de vime e, todos os dias a uma certa hora, sentava-se por um longo tempo à porta da casa de Rosinha, esperando ser recebido por Nicolau Klüppel para pedir permissão para o namoro. Segundo minha avó Olguinha contava, passaram-se semanas e, fosse na chuva ou no frio, Guerino continuava a sentar-se à porta, esperando  pacientemente ser recebido. Após um longo tempo, Nicolau teria dito a Rosinha que admirava uma pessoa com aquela persistência e, finalmente, convidou-o para entrar e autorizou o namoro do casal. Como nas melhores histórias românticas, casaram e foram felizes para sempre.


sábado, 5 de maio de 2018

Ainda Sobre Ludgero José Villet

1826


1846

Como disse antes, as pesquisas genealógicas familiares estão cada vez mais favorecidas pela constante publicação de livros antigos e registros na internet. O Google Books publicou recentemente novos documentos, que contém informações sobre a trajetória militar do meu tetravô Ludgero José Villet, pai da trisavó Maria Adelaide de Burgos Chapuzet Villet que junto com meu trisavó, o médico Antonio Botelho Peralta tornaram-se a matriarca e o patriarca do nosso ramo brasileiro da família Peralta, tendo chegado entre 1857 e 1858 ao Brasil.  

Os registros acima detalham momentos do início e do fim da carreira militar de Ludgero José Villet, como oficial de Infantaria do Exercito Português. O primeiro registra a incorporação de Ludgero ao Regimento de Infantaria número 4, no posto de alferes (equivalente a segundo-tenente, nos dias atuais), transferido das Companhias provisórias de Cabo Verde, no mesmo posto, onde foi ajudante de ordens de seu tio então coronel, João da Matta Chapuzet, governador do Arquipélago. A incorporação deu-se por decreto de 28/09/1826, publicado na Gazeta de Lisboa, número 240, página 985, em 12/10/1826.   

Quartel de Santo Ovídio na cidade do Porto - cerca de 1850

O segundo revela que em 1846, no posto de capitão, Ludgero José Villet comandava a 6ª Companhia do Regimento de Infantaria número 2, na cidade do Porto. O Regimento estava sob o comando do coronel Manoel Eleutério Malheiro e sediado no famoso Quartel de Santo Ovídio, no Campo da Regeneração (atual praça da República). A informação consta do Directorio Civil, Político, Commercial da Cidade do Porto e Villa Nova de Gaya, edição de 1846 da Typographia Commercial, página 81. Também consta que Ludgero residia na rua Bella da Princesa, nº 2 (hoje a conhecida rua de Santa Catarina). 

Segundo outros documentos que pesquisei e já publiquei neste blog (vide post), Ludgero José Villet foi reformado compulsoriamente, ou seja, transferido para a 3ª Seção do Exército, em 25 de outubro de 1846, num de ato de perseguição política da Junta da Patuleia, durante a famigerada revolução da Patuleia. Aparentemente, o ato foi definitivo e encerrou precocemente a vida militar de Ludgero José Villet. É de se registrar que Ludgero ficou pelo menos cinco anos longe das fileiras do Exército, acompanhando seu tio, o coronel João da Matta Chapuzet, num exílio forçado durante o período da usurpação de dom Miguel, o que certamente atrasou sua carreira.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Os Cem Anos de Olguinha Soffiatti Biscaia

Olguinha em 1921.


Itaperuçu no início dos anos 1920: Olguinha é a quinta criança da esquerda para a direita
Com meu avô Mario Chalbaud Biscaia, em 1967, defronte a igreja de Santa Teresinha, em Curitiba. 


No dia do seu casamento com Mário, em 28/05/1938, na casa de seus pais Rosinha e Guerino Soffiatti, na antiga rua Conselheiro Barradas, no centro de Curitiba. 
Com Mário, no baile de debutantes de minha mãe, Maria do Rocio Soffiatti Biscaia, em 1955, no Graciosa Country Club.


A primeira à direita, com as irmãs Geny e Leonor (a quarta e a sexta) e outras amigas em Guaratuba (1930).

Olguinha e Mário, na praia de Guaratuba, em 1940.

Com minha mãe no colo, em 1941, em Guaratuba, ao lado sua mãe Rosinha. Mais à esquerda, seu pai Guerino e sua cunhada Diva Bührer Soffiatti. Atrás, de chapéu, o pintor Guido Viaro, hóspede frequente da casa da família Soffiatti em Guaratuba.
Olguinha e seu pai Guerino Soffiatti na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 30/04/1936.  
Minha avó Olguinha, comigo em seu colo, ao lado minha bisavó Rosinha Klüppel Soffiatti e meu tio Mario Chalbaud Biscaia Junior, em julho de 1962, na sua casa em Guaratuba (PR).
Em 20 de abril de 1918, quando já sopravam os primeiros ventos frios no vale onde corre o Açungui, em Itaperuçu, na região metropolitana de Curitiba, nascia minha avó Olga Odilá Klüppel Soffiatti, depois Olga Odilá Soffiatti Biscaia ou, para nós que a amávamos, simplesmente Olguinha. Filha de Rosa Klüppel Soffiatti e Guerino Soffiatti, a caçula de oito irmãos e irmãs, os quais todos conheci, exceto Leonor, que faleceu ainda jovem. Minha avó sempre contou que teve uma infância muito feliz e foi amada e mimada por seus pais e seus irmãos.

Estudou no internato do Colégio São José e no Colégio Iguaçu. Casou-se em 1938, com Mario Chalbaud Biscaia e teve três filhos: minha mãe Maria do Rocio Soffiatti Biscaia; minha madrinha Vera Regina Biscaia Leme; e meu tio Mario Chalbaud Biscaia Junior. Conheceu todos os seus netos e grande parte dos seus bisnetos. Fui seu neto mais velho e tive a satisfação de um longo convívio com ela, morando na sua casa da rua Lamenha Lins, 203, e ao longo de uma grande parte de sua vida.

Olguinha tocou piano na juventude e, mais tarde, foi pintora premiada, catalogada entre os melhores artistas paranaenses. Desfrutei do seu carinho, de seus cuidados, de suas histórias, de suas memórias, de suas receitas, de suas pinturas, de seus conselhos e de tanto tempo juntos.

Tempos inesquecíveis, fosse em Curitiba ou nas maravilhosas temporadas de inverno e verão em Guaratuba. Incontáveis lembranças e uma saudade imensa, neste dia em que faria 100 anos. Uma presença iluminada e imorredoura, em minhas melhores recordações.