sábado, 14 de abril de 2012

O Velho Santa Maria




Aspectos da fachada externa, dos prédios e do pátio interno do Colégio Santa Maria, em Curitiba, em meados da década de 1970. Na foto ao alto, ao fundo, aparecem os tapumes das obras, no lugar onde ruiu o velho prédio da rua Tibagi, após uma enchente no rio Belém. 
O antigo Colégio Santa Maria, no centro de Curitiba, onde estudei. Nestes prédios e espaços, passei alguns dos mais felizes momentos da minha vida estudantil. Lembranças de grandes e sinceras amizades que lá foram construídas e que ainda hoje perduram. Muitos professores, diretores, funcionários e alunos ficaram na memória. Posso que dizer que, em Curitiba, minhas escolas sempre se situaram na Praça Santos Andrade. Ao terminar os estudos no Santa Maria, apenas passei para o outro lado da praça, no histórico edifício de colunata da prestigiosa Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, que este ano comemora cem anos de fundação.    

sábado, 7 de janeiro de 2012

Arthur Carlos Peralta: Cem Anos Neste Dia

O brigadeiro Peralta, assumindo, mais uma vez, o comando da EOEIG, na base aérea do Bacacheri, em Curitiba, em março de 1965.  Na foto, prestando continência ao comandante da V Zona Aérea, brigadeiro Doorgal Borges
O brigadeiro Arthur Carlos Peralta, em túnica de gala, na última foto oficial, como presidente do Círculo Militar do Paraná, durante o baile do dia da Independência, em 1966.

 Elogio do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Gabriel Grün Moss ao, então, coronel-aviador Arthur Carlos Peralta, ao deixar a chefia de gabinete para assumir o cargo de adido aeronáutico nos EUA, em julho de 1961 (publicado no DOU de 28/07/1961).  
No apartamento da Connecticut Avenue, 4600, em Washington - D.C., em 1962, onde morou quando foi adido aeronáutico nos EUA e Canadá.
Ao lado do primeiro carro, com minha avó Dyrce, meu pai e tio Paulo.
Em frente a uma das casas onde morou, em vila de oficiais, na década de 1940.


Recebendo a Ordem do Mérito Aeronáutico, do comandante da III Zona Aérea, brig. Francisco de Assis Correia de Mello, em outubro de 1955.
Capitão de equipe nos jogos militares, na década de 1930
O casamento com Dyrce Miranda Peralta, em 20/01/1936, em Niterói, então, segundo-tenente da arma de aviação do Exército, com a antiga farda verde-oliva.

 As bodas de prata, em 20/01/1961, na igreja de Santa Terezinha, em Curitiba.
Tenente-coronel aviador Arthur Carlos Peralta, com farda cáqui, em uma celebração religiosa, em 1955.

 Nota do jornal A Noite, do RJ, sobre a viagem da esquadrilha da escola de Aeronáutica que voou do Rio à Bolívia, em agosto de 1944, sob o comando do capitão-aviador Arthur Carlos Peralta. Pela façanha ele foi condecorado com  a ordem nacional  "El Condor de los Andes", a mais alta comenda concedida pelo país andino.

  
 Arthur Carlos Peralta, em foto de 1912.

 Arthur Carlos Peralta em 29/11/1917.
Neste dia, há cem anos, na cidade do Rio de Janeiro, nascia meu avô, Arthur Carlos Peralta, de quem herdei o nome. A melhor homenagem que podemos prestar aos nossos entes queridos, mais do que qualquer cerimônia ou festejos, é nunca os esquecermos. Quando as pessoas continuam a viver em nossos corações, em nossa memória e em nossos valores, não morrem jamais. Neste blog de histórias e saudades de família não poderia faltar a menção ao centenário de seu nascimento. 

Apesar do pouco tempo que convivi com ele – fui seu primeiro neto – tenho algumas claras lembranças. Lembro-me de quando foi me buscar em casa, em Niterói, para ambos cortarmos os cabelos, raspados à moda militar, sentados lado a lado, num barbeiro próximo do Campo de São Bento, o qual colocava uma tábua de madeira sobre a cadeira, para alcançar a máquina de corte em minha cabeça. Ainda o vejo pilotando o avião, quando me trazia do Rio de Janeiro a Curitiba para passar alguns dias, dividindo-me entre a sua casa e a dos meus avós maternos. Posso ouvir sua voz grave, quando paro em frente da casa onde morava, na avenida Munhoz da Rocha, 77, próxima ao hospital São Lucas, comandando ao sentinela de guarda no portão, que não tirasse os olhos de mim, enquanto eu brincava no imenso jardim. Pequenos flashes, muito vivos. 

Pessoas como as minhas avós e os meus avós não morrerão jamais. Continuarão vivos para sempre em minhas melhores recordações. Afinal, como diz o refrão de uma velha canção militar americana: "old soldiers never die, they just fade away". 

sábado, 5 de novembro de 2011

Família Chalbaud - Curitiba, 1945

A família Chalbaud reunida em 1945, defronte a casa de Antonio Chalbaud Biscaia, na rua Lamenha Lins, 213, em Curitiba, quando da visita de Evaristo Chalbaud Escosura e sua família, que viviam em Buenos Aires, Argentina. As irmãs de Evaristo: Concepción, Carmen, Josefina (minha bisavó), Mercedes, Julia e Joana, residiam em Curitiba. Josefina Chalbaud Biscaia é a quarta, da direita para a esquerda, sentada. Evaristo Chalbaud está sentado, bem ao centro da foto. Ao lado esquerdo deste, está sua mulher, Maria Elvira Chalbaud Reynolds. Na segunda fila, de cima para baixo, ao centro, estão meus avós Olga e Mario Chalbaud Biscaia, com minha madrinha Vera Regina, no colo. A criança de vestido branco e laço no cabelo, na primeira fila embaixo, é minha mãe Maria do Rocio Soffiatti Biscaia.    

sábado, 20 de agosto de 2011

Família Peralta: Ainda, o Velho Guaribu


A cachoeira que existia no velho açude do Guaribu



Nas fotos acima, entre outros jovens da família Peralta, aparece minha avó Dyrce Peralta
 



Dyrce e Arthur Carlos Peralta


Nas três fotos acima, meu pai, Carlos Henrique Peralta, na varanda frontal do casarão da fazenda do Guaribu, em fins da década de 1930. Os bancos da varanda eram em pedra de cantaria cobertos por líquen, nesta época. Ao fundo a bela vista do vale.

Os jovens da família Peralta, em fins da década de 1930, na fazenda do Guaribu, situada em Avellar, no município de Paty do Alferes (RJ). As fotos mostram meus avós, Dyrce e Arthur Carlos Peralta, meu pai, Carlos Henrique Peralta, familiares e amigos em vários lugares da velha fazenda. Aparece, ainda, a cachoeira que um dia existiu no açude da fazenda que, no passado distante, destinava-se a funcionar um dos primeiros geradores elétricos daquela região fluminense. Na minha infância, ainda conheci a cachoeira, já muito diferente das fotos, danificada pelo tempo e que hoje desapareceu. Também, mostram a varanda do velho casarão, hoje demolido, o qual conheci muito bem na minha infância.

As ruínas da escadaria e da varanda, debruçada sobre o vale, e a última palmeira imperial (sem copa) remanescente das quatro originais plantadas em renque, foi tudo que restou da antiga e imponente sede do Guaribu, construída em 1817, por Luiz Gomes Ribeiro e sua mulher, Joaquina Mathilde de Assunção Avellar que lá residiram, até o fim de suas vidas. Após a morte do casal, passou a residir no casarão um dos seus filhos, Cláudio Gomes Ribeiro de Avellar, o barão do Guaribu, que morreu solteiro, em 1863. A sede e as terras do Guaribu foram legadas ao seu irmão, João Gomes Ribeiro de Avellar, o visconde da Paraíba, que por sua vez, deixou-a para o filho de mesmo nome. A fazenda vem sendo transmitida ao longo de cinco gerações aos seus descendentes da família Avellar Peralta, até os dias de hoje.  

sábado, 16 de julho de 2011

Olguinha e Mario Biscaia e a Curitiba do Século XX



Meus avós, Olga e Mário Chalbaud Biscaia na, então, tranquila e segura Curitiba dos anos 1940/1950. Nas fotos ao alto, passeando despreocupados pela rua Quinze de Novembro, centro da cidade, em "instantâneos" feitos pelos fotógrafos que costumavam ficar nesta rua tirando fotos inesperadas e entregando seus cartões para vendê-las aos fotografados. Apesar da evolução e dos recursos digitais hoje disponíveis, este costume se perpetuou em diversos eventos e festas da capital, onde os famosos "bigodes" continuam a exercer sua tradicional atividade. Na foto logo acima, o casal dançando no baile de debutantes do Graciosa Country Club, em 1955, quando minha mãe debutou. 

sábado, 30 de abril de 2011

João Gomes Ribeiro de Avellar, o Jaco: Um Empreendedor do Futuro

Porto de Santos - 1870
Embarque de sacas de café no porto de Santos 
Uma das histórias de família mais marcantes que resolvi pesquisar, eu ouvia desde criança, nas habituais idas à fazenda do Guaribu, em Paty do Alferes (RJ), enquanto minha bisavó Herundina – vovó Neném – de Avellar Simões Peralta era viva. A história referia-se ao seu avô, João Gomes Ribeiro de Avellar, filho homônimo do visconde da Paraíba, que herdou do pai a fazenda e foi um dos fundadores da famosa Companhia Docas de Santos, junto com Cândido Gaffré, Eduardo Guinle e outros. Segundo a tradição, logo após a morte de João, a viúva, Emerenciana Calvet Ribeiro de Avellar, foi procurada pelos demais sócios da Companhia Docas de Santos e assinou sua desistência e a venda da participação naquela sociedade, deixando de possuir uma das maiores, mais ricas e prestigiosas empresas do Brasil. Para minha surpresa, as pesquisas revelaram um formidável protagonista do desenvolvimento nacional, no final do século XIX.
Porto de Santos na atualidade 
João Gomes Ribeiro de Avellar, chamado de Jaco pela família até hoje, era conhecido por este apelido. Cursou direito na tradicional Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo,  fazendo parte da turma nº 29. Seu curso acadêmico foi marcado por alguns tropeços. Seu pai, então barão da Paraíba, em 1856, precisou requerer ao senado do Império um ato legislativo para que pudesse fazer exames em atraso do segundo ano. Numa publicação de memórias e reminiscências sobre a Academia das Arcadas, Almeida Nogueira, assim o descreveu: "Fluminense, de Valença; filho do Barão de Parahyba. Alto, corpulento, claro, barba à ingleza. Temperamento expansivo e afectuoso. Inteligência regular, aplicação nenhuma." Colou grau em 19/11/1860 e foi admitido no Instituto da Ordem dos Advogados Brazileiros, em 17/07/1862. Exerceu a advocacia no Rio de Janeiro, por pouco tempo, com escritório na rua da Quitanda, 180. 

Casou-se com Emerenciana Cândida de Magalhães Calvet, em 01/09/1863, em Niterói (RJ). Entre seus padrinhos estava Teófilo Otoni. Tiveram seis filhos: João, em 1864 (o primeiro homônimo do pai, que faleceu ainda criança); Emerenciana (homônima da mãe), em 1866, casada com José Joaquim Barbosa; Leocádia (minha trisavó), em 1869, casada com Arthur Quirino Simões; Adelaide, em 1873, casada com Carlos Grey; João¹ (o segundo homônimo do pai), em 1874, casado com Maria Isabel Lopes Ângelo; e José de Paiva Calvet de Avellar¹ª em 1876, casado com Mildred (Williams) de Avellar. Na antiga capital fluminense, o casal residia na rua Presidente Domiciano, 14.

O Dr. João Gomes Ribeiro de Avellar, como gostava de ser chamado, dedicou-se à política fluminense, sucedendo seu pai, o barão e depois visconde da Paraíba, que chefiou o partido Liberal em Paraíba do Sul, por quase 50 anos. Foi eleito deputado provincial pelo 3.º distrito (sediado em Niterói) nas 15ª e 16ª legislaturas, de 1864 a 1867, tornando-se um dos mais influentes membros do partido Liberal na capital da província. Após a morte do pai, em 1879, herdou parte de suas terras, sendo a principal a fazenda do Guaribu. Possuía, ainda, terras e plantações de café na província de São Paulo.

Aviso de constituição da firma Ribeiro de Avellar & Carvalho, publicada em jornal da época
Em 1876, estabeleceu uma das mais importantes casas comissárias de café do Rio de Janeiro, que funcionou na rua dos Beneditinos, número 30 e, depois, no número 25 (havia uma filial em Niterói, na rua da Praia, 355, São Domingos), com a qual obteve grandes lucros, que proporcionaram recursos para novos investimentos. A partir de 1878 teve como sócio Raul Gomes de Carvalho² (Ribeiro de Avellar & Carvalho). Em junho de 1890, associou-se à Hyppolyto Velloso Pederneiras (Avellar & Pederneiras) o qual, também, integrava a sociedade destinada a exploração do porto de Santos.

Este tetravô, com Eduardo Palassin Guinle, Cândido Gaffré, Alfredo Camilo Valdetaro e alguns outros, obtiveram a concessão nonagenária para exploração e ampliação do porto de Santos, nos estertores da monarquia brasileira, por meio do Decreto nº 9.979 de 12/07/1888, e fundaram a Gaffré, Guinle & Cia., na qual Ribeiro de Avellar detinha a terceira maior participação societária, com 11,25% do capital social. Neste tempo, a lavoura cafeeira fluminense já se achava há algum tempo em lenta agonia e os fazendeiros mais lúcidos começaram a buscar novos negócios. Juntos, estes notáveis empreendedores, anteciparam o futuro e lançaram-se na empreitada, que tornou, os dois primeiros, mitos do capitalismo nacional. A família Guinle será sempre lembrada pelo fabuloso Copacabana Palace.

Não sei ao certo como iniciaram as relações entre J.G. Ribeiro de Avellar e Gaffrée e Guinle. É bem possível que Jaco tenha sido advogado e conselheiro de Gaffré e Guinle em seus negócios, ao tempo que todos eles estavam estabelecidos na rua da Quitanda. Talvez, a amizade tivesse origem em Porto Alegre, por meio das três famílias gaúchas: Gaffré, Guinle e Calvet. O pai de Emerenciana era o jornalista e deputado provincial gaúcho, José de Paiva Magalhães Calvet, notável personagem da Revolução Farroupilha e, mais tarde, oficial maior da secretaria de estado dos negócios do Império. Também procedia de Porto Alegre, o seu sócio tardio nos negócios de café, Hyppolyto Pederneiras.

Certamente, a relação entre os sócios era de sólida amizade e confiança. A reconhecida competência de Gaffré e Guinle como capitalistas e empreendedores, associada ao vasto relacionamento político e o prestígio social de J.G. Ribeiro de Avellar, parecem ter sido os fatores que cimentaram esta sociedade e os animaram a desenvolver diversos negócios em conjunto, alguns dos quais lograram êxito no futuro e outros, nem tanto. A amizade entre as suas famílias era bem anterior ao empreendimento do porto de Santos e estendia-se muito além dos aspectos societários e empresariais. Emerenciana e Jaco eram padrinhos do segundo filho de Guilhermina e Eduardo P. Guinle, Guilherme Guinle, nascido em 1882, o qual mais tarde se tornaria presidente das Docas de Santos.³

O Brasil do início da década de 1890 vivia o período do famigerado encilhamento. O novo governo republicano, tendo Ruy Barbosa como ministro da fazenda, incentivou os empreendimentos com crédito abundante para promover uma aceleração no desenvolvimento econômico e social do país. Neste cenário de novos horizontes, multiplicaram-se as oportunidades de investimentos para capitalistas que tivessem coragem e arrojo para empreender, o que proporcionou um rápido crescimento e a geração de inúmeros negócios que prosperariam no futuro. Contudo, o país acabou desembocando numa crise financeira de graves proporções nos anos seguintes, dadas as combinações negativas de fatores internos e externos, especialmente, a queda vertiginosa dos preços internacionais do café.
 

Aceitando os desafios desse ciclo, J. G. Ribeiro de Avellar, ao lado de Gaffré, Guinle, Raymundo de Castro Maya, Gustavo Etienne, Paulo de Frontin e outros investidores, em assembleia presidida pelo mesmo, fundaram a Empreza Industrial de Melhoramentos no Brazil, cujo principal objetivo era participar das obras e atividades do processo de urbanização e de desenvolvimento viário e portuário nacional, que fora iniciado pelo novo regime republicano e explorar as concessões obtidas individualmente pelos seus sócios. Em fevereiro de 1890, liderados por Ribeiro de Avellar, este grupo de empresários apresentou às autoridades cariocas um projeto para construção de um novo cais entre a ponta da Saúde e a ponta do Caju, que foi aprovado em junho e cuja concessão foi outorgada à companhia em outubro do mesmo ano e se transformou no novo porto do Rio de Janeiro.

Em setembro daquele ano, essa mesma empresa, numa sociedade com Antonio Proost Rodovalho, constituiu a Companhia Melhoramentos de São Paulo, que consistia num complexo empresarial formado por fazendas, caieiras, pedreiras, olarias, madeireiras e fábricas de papel, destinadas a participar do processo de construção da infra-estrutura para o desenvolvimento do estado de São Paulo, que já crescia a passos largos. A Empreza Industrial de Melhoramentos no Brazil foi acionista de empresas de transportes urbanos (bondes) no Rio de Janeiro (Companhia Ferro Carril do Jardim Botânico) e em Niterói. A companhia foi proprietária das ferrovias que ligavam Paraíba do Sul ao Rio de Janeiro, vendidas à E.F. Central do Brasil, em 1903.


Rua São Clemente, com o Corcovado ao fundo - anos 1890
Outra empresa inovadora que fundaram foi a Cia. Brasileira Torrens que, entre outros objetivos, se destinava a promover o uso do sistema Torrens no Brasil. Este sistema de registro imobiliário rural, utilizado na Austrália há mais de cem anos, vigorou no Brasil por um tempo curtíssimo, adotado por Ruy Barbosa durante o primeiro governo provisório republicano. Curiosamente, Ruy Barbosa adquiriu em 1893, a casa ao lado da que era residência de João Gomes Ribeiro de Avellar, na Rua São Clemente, 128, no bairro carioca de Botafogo. O grande jurista baiano residiu no número 134 que, hoje, abriga a Fundação Casa de Ruy Barbosa. Cândido Gaffré morava no número 145 e Eduardo Guinle, no 143, todos na mesma rua.

Ribeiro de Avellar, contudo, faleceu precocemente, vítima da typhica (febre tifóide), em novembro de 1890, com cinqüenta e quatro anos de idade. Havia iniciado negócios que frutificariam e transformariam seus sócios em magnatas, lendas do capitalismo brasileiro da primeira metade do século XX. A Companhia Docas de Santos tornou-se uma das maiores empresas do continente e o porto de Santos, o mais importante da América Latina, até os dias de hoje. A Companhia Melhoramentos de São Paulo, também, transformou-se num gigante econômico. Como ele previra, São Paulo foi a locomotiva do Brasil e seus investimentos foram acertados e benéficos para o desenvolvimento nacional. O estado paulista floresceu e o vale do Paraíba fluminense feneceu, pela mesma causa: o café. Ribeiro de Avellar, um homem de larga visão, vinha transferindo seus investimentos em comércio cafeeiro para essas novas atividades mais promissoras e rentáveis. Se, de um lado, isso trazia excelentes perspectivas para o futuro, de outro, criava um grande endividamento naquele momento para financiar os novos empreendimentos e sustentar os velhos negócios do café, que enfrentariam uma grave crise internacional, durante a década de 1890.         

Sede da fazenda do Guaribu em meados da década de 1930
A viúva meeira, Emerenciana, com filhos menores, abalada com o falecimento prematuro e, como a maioria das mulheres da época, alheia aos detalhes e complexidades dos negócios do marido, teria sido aconselhada a liquidar a parte de João Gomes Ribeiro de Avellar na sociedade, deixando de participar do surgimento de um dos maiores conglomerados econômicos da América. Ela faleceu pouco depois do marido, em janeiro de 1891 e, segundo a tradição familiar, abatida pela perda de Jaco, morreu de amor. ³ª

Convite para a missa de sétimo dia de Emerenciana, mandada celebrar por Eduardo P. Guinle e sua esposa, em Petrópolis (RJ).

A amizade entre os Avelar, os Gaffré e os Guinle perdurou ainda algum tempo. Em 04/09/1891, no casamento de meus trisavós, Leocádia Calvet de Avellar e Arthur Quirino Simões, foram seus padrinhos Cândido Gaffré e Eduardo Guinle, assinando os termos civil e religioso. Antes disso, sociedade Gaffré, Guinle & Cia. foi comanditária em um negócio de comércio de tecidos que meu trisavô Arthur Quirino Simões manteve com seu irmão Olegário Quirino dos Santos (Quirino Irmaõs & Cia.) a partir de 1885, na rua da Quitanda, 11 (depois no número 62). É muito provável que esse negócio fosse sucedâneo da casa de tecidos Aux Tuileries, onde Gaffré e Guinle começaram suas vidas como comerciantes no Rio de Janeiro, situada no mesmo local. A despeito da ação que foi movida pelos herdeiros contra a Gaffré, Guinle & Cia, meu trisavô ocupou cargos nesta, ao longo das décadas de 1900 e 1910 e o casal Leocádia e Arthur continuou mantendo boas relações com as famílias dos ex-sócios de Jaco.

Convite para missa que foi celebrada na fazenda do Guaribu, quando do falecimento de Cândido Gaffré.

Em 1903, os herdeiros buscaram na justiça a anulação da desistência da participação societária, por meio de uma ação que tramitou por quatorze anos e foi encerrada, sem êxito, no Supremo Tribunal Federal. O ministro Pedro Lessa foi o relator da decisão unânime, publicada em 18/08/1917. Neste julgamento, os ministros José Luiz Coelho e Campos e Sebastião de Lacerda, este último parente próximo da família Avellar, declararam-se impedidos. 

A dissolução parcial da sociedade havia sido assinada em 26/12/1890, pelo procurador da viúva inventariante, o advogado Antonio Tiburcio Figueira. Os haveres da liquidação das quotas sociais foram entregues em pagamento ao maior credor de Ribeiro de Avellar, o Banco do Brasil, que financiava seus negócios, antigos e novos. Isso pode explicar a decisão da viúva sobre a desistência da participação societária, que seu marido possuía nas Docas de Santos. Como ainda decorreriam alguns anos até que estes negócios amadurecessem e se tornassem lucrativos, sua opção deve ter sido a de conservar o patrimônio que já possuía, como a fazenda do Guaribu, que foi herdada por minha trisavó Leocádia, permanecendo até hoje com os descendentes do casal Ribeiro de Avellar.

Agradeço aos bibliotecários da National Library of Australia e da LaTrobe University, em Victoria, Australia, por valiosas informações sobre esta história que, curiosamente, não estão disponíveis no Brasil. 
   
¹ João Gomes Ribeiro de Avellar (o segundo filho homônimo de Jaco) era funcionário do Banco do Brasil. Faleceu na cidade de São Paulo, em novembro de 1918, aos 44 anos de idade, durante a pandemia de gripe espanhola, juntamente com dois de seus quatro filhos: Maria José Ribeiro de Avellar, 19 anos; e, Angelo Ribeiro de Avellar, 20 anos.   
¹ª José de Paiva Calvet de Avellar faleceu no Rio de Janeiro, em março de 1937. Sua esposa, Mildred (Williams) de Avellar, era cidadã americana, nascida em Clinton, N.Y, em 31 julho de 1895, e falecida no Rio de Janeiro, em 4 de julho de 1985. O casal residiu na cidade de Nova Iorque entre 1917 e o começo da década de 1930, onde nasceram seus filhos: Richard de Avellar, Delza de Avellar (Sullivan) e Ruby de Avellar (Moore), alguns dos quais voltaram a viver nos EUA. 
² Raul Gomes de Carvalho, o primeiro sócio de Jaco nos negócios de café, era filho do barão do Rio Negro, cuja residência  em Petrópolis (RJ), o Palácio Rio Negro,  foi adquirida pelo governo federal no início do século XX e tornou-se a residência de verão dos presidentes da República. A casa anexa ao palácio, que pertencia ao próprio Raul, também, foi adquirida e faz parte do mesmo conjunto.
³ Embora, ainda, não tenha encontrado a certidão de óbito de Emerenciana, tudo indica que ela faleceu, também, em decorrência da febre tifoide. É certo que a própria intimidade conjugal favorecesse o contágio. Além disso, muito curiosamente, as descrições dos sintomas de Emerenciana no seu leito de morte, que ouvi de meus avós e tios-avós, os quais ouviram da trisavó Leocádia (fraqueza extrema, prostração e inanição, como se estivesse definhando) e que podem ter sido interpretados apenas como grande sofrimento pelo súbito falecimento de Jaco, coincidem exatamente com as características da febre tifoide. Porém, todos nós, seus descendentes, em homenagem à sua memória, que amamos, preferimos acreditar que ela, simplesmente, morreu de amor por seu Jaco.  
³ª Guilherme Guinle foi batizado em 25/06/1882, no Rio de Janeiro, na igreja de São João Batista da Lagoa, pelo padre Ladislau Adolfo Sales e Silva, coadjutor do vigário Monsenhor Francisco Martins do Monte, com assentamento no livro 9, fls. 62. (transcrito do livro "Guilherme Guinle (1882-1960) ensaio biográfico", de Geraldo Mendes Barros; Livraria Agir Editora, 1982; pág. 4).         

quinta-feira, 21 de abril de 2011

João Gomes Ribeiro de Avellar, o visconde da Paraíba

O visconde da Paraíba



O solar da fazenda Boavista, residência de João Gomes Ribeiro de Avellar e sua família, em Paraíba do Sul (RJ).
O palacete do visconde da Paraíba, no centro da cidade de Paraíba do Sul (RJ)

João Gomes Ribeiro de Avellar, depois barão e visconde da Paraíba, nasceu em 07/01/1805, na freguesia de Santa Rita, na cidade do Rio de Janeiro, filho de Luiz Gomes Ribeiro e de Joaquina Mathilde de Assumpção Avellar. Era, ao mesmo tempo, neto materno e sobrinho-neto paterno do tenente Antonio Ribeiro de Avellar, que fundou as fazendas Pau Grande e Guaribu e foi testemunha de defesa de Tiradentes nos "autos de devassa". A família Ribeiro de Avellar era uma das maiores proprietárias de terras e produtoras de café, no vale do Paraíba fluminense. 

João Gomes Ribeiro de Avellar casou-se, em 15/11/1831, com Carolina Rosa de Azevedo, com quem teve cinco filhos: Rosa, Carolina, Manuel Joaquim, João (homônimo do pai e meu tetravô) e Luis. A fazenda da Boa Vista, onde residiam, situada em Paraíba do Sul (RJ), surgiu da união de duas sesmarias, concedidas pela coroa portuguesa em 1811: Cachoeira da Boavista e Surubiquara. O capitão Manuel Joaquim de Azevedo adquiriu ambas, transformando-as em uma única propriedade, onde fez construir um grande engenho de açúcar e cultivou cana. Após sua morte e da esposa, a fazenda foi herdada por sua única filha Carolina Rosa e seu genro, João Gomes Ribeiro de Avellar, que a transformou em grande produtora de café.

O solar da Boavista foi construído em 1834 e recebeu sucessivos melhoramentos. Em 1860, construiu um palacete na vila de Paraíba de Sul, onde ocorreram muitas reuniões políticas do Segundo Império. Os salões de suas casas receberam importantes personagens, principalmente do Partido Liberal, que Ribeiro de Avellar liderou naquela região fluminense por quase meio século. Seu opositor, Hilário Joaquim de Andrade, o barão de Piabanha, chefiava o Partido Conservador. O visconde era considerado "um homem de grande firmeza de caráter, discreto e que tratava cordialmente seus adversários". Teve papel relevante no auxílio aos habitantes de Paraíba do Sul quando da epidemia de cólera, em 1855.

Exerceu a presidência da Câmara Municipal de Paraíba do Sul, cargo equivalente ao de prefeito da época. Foi coronel-chefe da 8.ª Legião da Guarda Nacional, sediada em Paraíba do Sul, nomeado em 30/10/1841. Por duas vezes, foi vice-presidente da província do Rio Janeiro, designado em 10/08/1848 e em 01/06/1864. Deputado provincial na primeira legislatura, em 1835, e em outras seguintes. Foi fundador do Clube da Lavoura do Rio de Janeiro. O título de barão da Paraíba foi-lhe concedido em 30/12/1858 e o de visconde, em 04/03/1876. Dois irmãos seus foram, também, titulares do Império: Cláudio, o barão do Guaribu; e Paulo, o barão de São Luis.

O visconde da Paraíba faleceu em 12/01/1879, na sua fazenda da Boavista. Havia fundado ou herdado diversas outras fazendas, num total de 1.625 alqueires de terras. A Boavista foi herdada por seu filho Manuel Joaquim de Azevedo Avellar, bacharel em direito e adido de legação na Europa, por seu filho homônimo João, conhecido por Jaco e, por seu genro, Luiz Carlos Mariano da Silva, que a venderam ao governo imperial, o qual pretendia ali instalar uma hospedaria para imigrantes, o que ocorreu depois da proclamação da República. Atualmente, o velho solar da fazenda, muito bem conservado, pertence a particulares.

Notícia da venda da fazenda Boa Vista ao governo imperial (Revista de Engenharia - 1889).
O filho homônimo do visconde, João Gomes Ribeiro de Avellar, o Jaco, meu tetravô, recebeu ainda, as terras das fazendas do Guaribu e Guaribu Velho. Jaco casou-se com Emerenciana Magalhães Calvet de Avellar e foram pais de minha trisavó, Leocádia Calvet de Avellar, que se casou com Arthur Quirino Simões. Por meio da filha, Herundina de Avellar Simões, casada com Valdomiro Villet  Peralta, transmitiram a fazenda do Guaribu à família Peralta. Em seus últimos anos de vida, o visconde estava desalentado com os rumos da cafeicultura, especialmente, na província do Rio de Janeiro. Antevendo os acontecimentos que determinariam o fim do ciclo fluminense do café e o declínio da economia rural da região e dos fazendeiros, em seu testamento ditado na Boavista, em 13/06/1876, recomendou aos seus filhos que se afastassem da agricultura, advertindo-os que “seu futuro como lavradores era medonho”.

Dez anos após a sua morte, a decadência econômica do vale do Paraíba fluminense já era visível. A exaustão do solo pelo cultivo extensivo de café, ao longo de décadas, com técnicas rudimentares, e a contínua expansão do seu plantio nas adequadas e férteis terras paulistas, deslocou definitivamente o pólo da produção cafeeira para o sul do Brasil, avançando até o norte do Paraná, na primeira metade do século XX. Além disso, sucessivas superproduções de café, aviltaram os preços na última década do século XIX, levando muitos cafeicultores e empresas à ruína. Conforme ele temia, a civilização do café fluminense, que trouxera consigo riqueza, prosperidade e fastígio para a região por mais de meio século, havia terminado. As fazendas da Boavista e do Guaribu foram testemunhas e palcos do apogeu e da derrocada desta era, sendo que esta última, ainda pertence aos seus descendentes, da família Peralta, após mais de duzentos anos de sua fundação.  

Agradeço ao pesquisador e conterrâneo, Roberto Menezes de Moraes, por informações do testamento e a foto do visconde.