quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Emerenciana e Jaco: 150 Anos de Uma História de Amor



Assento do casamento de Emerenciana e Jaco, em 01/09/1863. Entre as testemunhas estava o senador Teófilo Ottoni, chefe do partido Liberal e amigo de ambas as famílias. (certidão obtida em Familysearch.com)  
Pouco nos damos conta de que, se alguns fatos no passado remoto não tivessem acontecido, não teríamos sequer existido. Assim, embora seja por demais óbvio, devemos nossa simples existência aos nossos antepassados, por meio de suas uniões e casamentos. Minhas pesquisas sobre João Gomes Ribeiro de Avellar, o Jaco, meu tetravô, revelaram fatos e documentos sobre sua singular história pessoal, familiar e profissional, bem como sobre a tetravó Emerenciana Cândida de Magalhães Calvet, que facilmente recheariam um grosso volume de um livro. Por isso mesmo, resolvi tratar neste post do casamento destes nossos emblemáticos antepassados, que faz 150 anos, neste mês de setembro. Emerenciana e Jaco casaram-se no dia 1º de setembro de 1863, em Niterói, capital da província do Rio de Janeiro, num "oratório decentemente preparado" na casa do tio-avô da noiva, João Antonio de Magalhães Calvet¹.

Na ocasião, Jaco era um jovem advogado, bacharelado em 1860, na turma nº 29, das gloriosas Arcadas do Largo de São Francisco, em São Paulo. Em pouco tempo, deixaria a advocacia como atividade principal para dedicar-se à política fluminense, como deputado provincial, sendo um dos principais líderes do partido Liberal na capital da província. Seu pai, o visconde da Paraíba, liderou o mesmo partido em Paraíba do Sul, por quase meio século. Os Ribeiro de Avellar, cafeicultores no vale do Paraíba fluminense, detinham razoável poder político e muitos familiares ocuparam posições importantes no governo provincial e imperial.

A notável influência política pessoal de Jaco na província e na capital do Império continuaria ao longo de toda a sua vida, mesmo após encerrar seus dois mandatos na Assembléia provincial e tornar-se um dos mais importantes e prósperos comissários de café no Rio de Janeiro e inclusive, depois do advento da República. Seu prestígio e suas largas relações com personalidades, ministros, políticos, banqueiros, cafeicultores e advogados permitiram que viesse a empreender muitos negócios arrojados para o seu tempo, como a fundação da sociedade Gaffré, Guinle & Cia., da qual era o terceiro maior acionista. A concessão do porto de Santos em 1888 aos fundadores desta empresa, por noventa anos, que deu origem à Companhia Docas de Santos, foi obtida decisivamente por meio das relações pessoais de Jaco, no governo e na família imperial. Se a morte precoce não houvesse ceifado seus dias, aos cinquenta e quatro anos de idade, certamente, seria um dos maiores empresários de seu tempo.

A jovem noiva, Emerenciana, era filha de José de Paiva Magalhães Calvet², nascido em Porto Alegre, em 1807, líder revolucionário farroupilha, jornalista e deputado; e de Emerenciana Emília de Campos, de família fluminense. Magalhães Calvet presidia a Assembleia provincial rio-grandense quando irrompeu a revolução Farroupilha. Durante a guerra dos Farrapos, foi feito prisioneiro junto com Bento Gonçalves, na batalha do Fanfa, em 1836. Por meio de habeas corpus foi libertado, em outubro deste ano, e enviado para o Rio de Janeiro, por ordem do regente Diogo Antonio Feijó, em exílio forçado do seu amado Rio Grande do Sul, para onde foi proibido de voltar: a pena mais dolorosa para um legítimo gaúcho. Foi anistiado em agosto de 1839, por decreto do regente Pedro de Araújo Lima. 

Permanecendo na Corte, em 1842, Magalhães Calvet foi nomeado oficial maior da Secretaria de Estado dos Negócios do Império. Elegeu-se, naquele ano, deputado à Assembleia geral, pelo Rio Grande do Sul. Eleito, mais uma vez, em 1853, morreu prematuramente, em julho do mesmo ano, sem fortuna, deixando seus filhos órfãos e em tal situação, que o imperador mandou aprovar o Decreto nº 705 de 03/09/1853, concedendo pensão anual de 800 mil réis para o sustento destes, até que atingissem a maioridade. Preocupado com o destino das filhas de Magalhães Calvet, o próprio dom Pedro II se empenharia, pessoalmente, em arranjar bons casamentos para as três: Adelaide, Emerenciana e Josefina, de acordo com os costumes da época, para garantir-lhes uma vida confortável no futuro. Enquanto isso não acontecia, emitiu o Decreto nº 898 de 11/07/1857, fazendo com que elas recebessem a pensão do governo imperial, mesmo após a maioridade, enquanto fossem solteiras.

José de Paiva Magalhães Calvet, pai de Emerenciana. Reconhecido como grande orador, é considerado um dos mais importantes líderes da revolução Farroupilha
Uma das possíveis hipóteses da aproximação entre Emerenciana e Jaco pode ter sido a interferência do monarca junto ao pai deste, o barão e, depois, visconde da Paraíba. A mais provável é a de que foram apresentados pelo irmão dela, José de Paiva Magalhães Calvet, colega de Jaco na Academia de Direito de São Paulo (formado em 1859, na turma nº 28) de quem tornou-se amigo e foi quem o indicou à admissão no Instituto da Ordem dos Advogados Brazileiros, em 1862. Este irmão de Emerenciana, homônimo do pai, foi destacado advogado na Corte, deputado provincial fluminense e, mais tarde, já no período republicano, foi diretor do Banco do Brasil por longo período. O Doutor Calvet, como era conhecido, casou-se em 1869, com Porcina de Avellar e Almeida, filha dos barões do Ribeirão, que residiam em Vassouras.

Muitas são as possibilidades sobre porque, como, quando e onde se conheceram e, afinal, a imaginação governa o mundo, dizia Napoleão. Na nossa tradição familiar, em tudo que ouvi sobre o casal, de minha bisavó, de meus avós e tios-avós, as histórias sempre falavam de um amor incomum entre eles, apaixonados por toda a vida, e da morte dela, logo depois dele, como se poderia encontrar nas páginas de um belo romance oitocentista. Tudo o que encontrei sobre o casal - e não foi pouco - em minhas pesquisas, apenas reafirma as histórias que escutei. Ambos morreram na terrível epidemia de febre tifoide que grassou no Rio de Janeiro, na última década do século XIX. Esta doença apresentava sintomas que levavam à morte por fraqueza e inanição. Ele faleceu em novembro de 1890. Ela, em janeiro de 1891. Nas histórias contadas em nossa família, dizia-se que ela havia morrido de amor, de paixão, de tristeza pela falta do seu Jaco e fora definhando aos poucos. Em homenagem a ambos, prefiro acreditar que foi por isso e não em decorrência de uma prosaica febre typhica. 
  
Para nós, seus descendentes, que aprendemos a amar suas memórias por meio das histórias que nos foram contadas pela sua neta, minha bisavó Neném, nas noites de tempestade e sem luz elétrica, no velho casarão da fazenda do Guaribu, que pertencia ao casal Jaco e Emerenciana, o mais o importante é que se casaram, permitindo que um dia existíssemos. Assim, hoje eu posso contar a história de amor da vida deles o que é, em si mesmo, algo a comemorar, longos 150 anos depois. 


¹ João Antonio de Magalhães Calvet, tio do pai de Emerenciana, era casado com Rosa Amália de Campos, irmã da mãe desta. Com a prematura morte dos pais de Emerenciana, o casal Rosa Amália e João Antonio de Magalhães Calvet foram nomeados tutores dos sobrinhos órfãos e os criaram como seus filhos. Também colaborou na criação dos órfãos, outra irmã de sua mãe, Leocádia Augusta de Campos. João Antonio era funcionário do Tesouro provincial do Rio de Janeiro.   
²  José de Paiva Magalhães Calvet era neto materno de Manoel Antonio de Magalhães, nascido em Portugal em 1760, na vila trasmontana de São Bartolomeu de Vila Flor. Estabeleceu-se no Rio Grande do Sul, em fins do século XVIII. Foi administrador dos quintos e dízimos da Fazenda Real da capitania gaúcha. Escreveu em 1808, o conhecido Almanak da Vila de Porto Alegre, que foi remetido ao príncipe regente Dom João, contendo informações detalhadas da situação da vila e da capitania, quando da chegada da Corte portuguesa ao Brasil.          

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